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Crônicas de Jerusalém: Tudo junto e segregado


Jerusalém é sem dúvida uma das cidades mais antigas do mundo e de suma importância para as três mais significativas religiões do planeta: judaísmo, cristianismo e islamismo. Palco e razão de inúmeros conflitos, ela segue imponente e complexa, como podemos perceber no relato verossímil do quadrinista canadense Guy Delisle: "Crônicas de Jerusalém". 
Acompanhando a esposa que faz parte da organização "Médicos sem fronteiras" ele faz um relato do ano de 2011 que passou com seus dois filhos (uma menina e um menino) na cidade em questão, como já havia feito em "Crônicas Birmanesas".  Em seu currículo também constam "Pyongyang" e "Shenzhen", viagens motivadas pelo seu trabalho como animador.  
Sua ótica  imparcial e despretensiosa (em determinado momento agradece a Deus por ser ateu) permite uma visão mais rica de um local onde transportes e lojas funcionam em horários diferentes e específicos para cada religião, inúmeros bloqueios da ONU localizados pela cidade forçam os habitantes a estar constantemente mostrando documentos e grupos religiosos diferentes convivem na mesma cidade sem interagirem entre si mesmos. Tudo é retratado de forma bastante casual e irreverente, sem o viés político e ácido do quadrinista Joe Sacco, com quem ele é confundido certa vez, durante a sua estadia na região. 


A sexta-feira é sagrada para os muçulmanos, o sábado para os judeus e o domingo para os cristãos, fator esse que gera inúmeras consequências, sendo uma delas o funcionamento da escola apenas quatro dias por semana. 
Em um determinado momento ele é informado de que não são vendidos sorvetes durante a Páscoa Judaica porque a casquinha tem fermento e nada com esse ingrediente pode ser vendido na referida época. Ele tenta argumentar que não é judeu e o vendedor lhe devolve um sorriso amarelo, como quem não pode fazer nada para ajudá-lo. Esses e outros momentos bem humorados permitem uma leitura atraente e descompromissada das desventuras de um protagonista que precisa se acostumar com um novo conjunto de regras e itinerários bastante confuso.  
Outra passagem que vale menção é quando ele percebe que está pisando em um dos calçamentos mais antigos da cidade e fica maravilhado, pensando que provavelmente Jesus e seus apóstolos tenham passado por ali, enquanto sua mulher e filhos seguem indiferentes ao seu entusiasmo. 
O autor tenta várias vezes explicar a confusa dinâmica na região e a razão dos conflitos que já existem há vários anos, mas felizmente não consegue, já que estamos tratando de algo tão natural à nossa distorcida, incoerente e admirável natureza humana. Como dizia o escritor irlandês Jonathan Swift "Nós temos a religião suficiente para nos odiarmos, mas não a que baste para nos amarmos uns aos outros." 

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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