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Intolerância e sobrevivência em Maus


Inúmeras obras de arte já discursaram sobre o Holocausto nazista e o seu impacto na história da humanidade. “Maus” de Art Spiegelman também aborda o referido tema, mas se diferencia pela abordagem extremamente humanista e pessoal, tornando-se um clássico dos quadrinhos contemporâneos.

O autor narra a trajetória de seu pai, Vladek e sua mãe Anja em Sosnowiec, na Polônia desde o período anterior à invasão dos alemães até o final da Segunda Guerra Mundial.Ele não poupa detalhes ao retratar a crueldade e injustiça dos opressores, colocando seus cativos em situações que testam o limite da natureza humana, chegando inclusive a promover alguns dos judeus a soldados, reforçando assim esse enclausuramento social,cultural e religioso.

Esse contraste antes e depois da invasão nazista mostra o quanto suas vidas foram modificadas, sendo gradativamente destituídos de todos os seus bens pessoais e reduzidos a meras sombras dos grandes empresários de tecido que foram no passado.


Intercalando os flashbacks com os dias atuais, onde Art debate com seu pai sobre os eventos enquanto ele os narra, o autor insere uma história dentro da história, com pontos de vista e conjunturas históricas completamente diferentes: percebemos que Vladek é um sobrevivente, não um herói. Seu comportamento isolado e seu temperamento irritadiço espelham seu cansaço emocional, reforçado pelo peso de algumas escolhas que ele se sentiu forçado a tomar pelo seu próprio bem enquanto estava cativo em Auschwitz, trazendo uma análise complexa sobre o ser humano e seu comportamento em situações limite.

A relação entre pai e filho, que já não era das melhores, tendo em vista os vários eventos trágicos que aconteceram, vai ficando cada vez mais fragilizada.

O autor aproveita para inserir também suas próprias preocupações e dúvidas a respeito do processo de construção da obra  em questão, sua “culpa” por ter crescido num contexto diferente de seus pais e o receio de não conseguir traduzir toda a angústia e sofrimento presentes naquele período.


Um dos grandes destaques desse livro é o antropomorfismo, a representação animal de personagens humanas: os judeus são ratos (em alemão_ maus), os alemães são gatos, os americanos são cachorros, os franceses são sapos, os poloneses não judeus são porcos, os suecos renas, os ciganos traças e os ingleses peixes. Esse uso de alegorias foi uma tirada irônica em relação  às imagens propagandistas do nazismo que mostravam os judeus  e os poloneses dessa forma. O uso dessa técnica não ameniza em nenhum momento o impacto visceral da história contada.

A obra foi inicialmente lançada em dois capítulos, sendo o primeiro publicado em 1980 e o segundo em 1991. Atualmente os dois se encontram publicados num só volume. Levou treze anos pra ficar pronta e foi traduzida para pelo menos dezoito idiomas. Um belíssimo ensaio que ilustra a potencialidade distorcida da natureza humana num contexto extremamente nefasto que levou algumas pessoas a um novo estágio de percepção das coisas, cercadas de paranoia e egoísmo, mas que ainda assim conseguiam demonstrar um pouco de compaixão quando era possível.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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