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Mente à deriva num oceano em fúria


O pintor romântico Joseph Mallord William Turner nasceu em Londres no dia 23 de abril de 1775. Desde jovem era fascinado pelo rio próximo à sua casa. O Tâmisa com suas variações do jogo de luz em suas águas inquietas, a neblina galgando solene as velas e envolvendo os barcos, assim como toda a atmosfera portuária eram cenas que marcariam toda a sua vida e obra.

Seu figurino era um tanto desleixado,optando sempre por roupas simples. Era, sobretudo um homem introspectivo, seco, reservando a poucos seu lado mais afetuoso. Seus métodos de trabalho são um mistério até hoje, pois ele era bastante recluso.

Estudava com afinco os grandes mestres, enxergando neles um modelo a ser seguido e posteriormente superado. Acreditava no desafio enquanto motivação para continuar sempre melhorando sua arte. Além disso, a competição fazia parte de sua natureza.


Desde cedo não teve nenhuma formação artística específica. Entretanto, sua dedicação e principalmente seu inquestionável talento, foram suficientes para qualificá-lo a ingressar, aos 14 anos, no curso livre da Academia Real inglesa. Foi o mais jovem integrante da instituição, em toda a sua história, tornando-se membro vitalício aos 26.

Depois de conhecer a Itália, especialmente Veneza, onde ficou deveras impressionado com a arte, história e iluminação natural, Turner se comprometeu a retratar uma leitura peculiar do imenso potencial inserido na luminosidade.
Nenhum artista antes dele se dedicou tão avidamente a tratar a luz enquanto pura cor e por conta disso alguns o consideram um dos precursores do Impressionismo (movimento artístico onde as pinturas registravam as tonalidades que os objetos adquirem ao refletir a luz solar num determinado momento).

Em suas telas é perceptível a sua devoção pelo oceano, muitas vezes revolto enquanto baila com os raios solares ou lunares. Ilustrou com maestria a essência épica desses elementos. Imagens que evocam a paixão inconstante que pulsava dentro dele, espelho da majestade indomável que assombrava sua consciência.


O barco entregue aos desejos do mar enquanto banhado pela luz ancestral do sol e embalado pelo carinho maternal do luar. A alvorada e o crepúsculo enquanto ícones do eterno ciclo de vida e morte que paira sobre a imprevisibilidade existencial, representada nos quadros pela água dos rios e mares. A indefinição mítica enquanto espelho revelador da alma humana.

Morreu no dia 19 de dezembro de 1851, em seu quarto, observando o rio que tanto o cativou na infância. Após meses desaparecido, foi descoberto muito doente por sua empregada. Em seu testamento, Turner deixava para sua nação cerca de trezentos quadros a óleo e aproximadamente 20.000 aquarelas, pedindo que fossem alojados numa galeria especial.

Também determinava que sua fortuna — somando 140.000 libras— fosse destinada a uma instituição que atendesse artistas ingleses necessitados. Mas suas solicitações não foram atendidas.

Um artista extremamente apaixonado pelas poéticas paisagens que concebia, deixando claro em suas telas o desejo de transcender e fundir-se com elas,inebriado pela luz revigorante que projeta a esperança de chegar a um porto seguro após a tempestade.

Sua admiração pelas forças da natureza projeta a eterna busca pela essência majestosa que impera sobre a nossa insignificante arrogância.


Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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