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Os Sertões: Relato de uma marginalidade atávica


No dia 15 de agosto de 2008 foi celebrado o centenário da morte de Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, um dos grandes nomes da literatura brasileira além de sociólogo, repórter jornalístico, historiador e engenheiro.

Dentre as suas realizações, a obra Os sertões é sem dúvida a mais memorável e que o tornou internacionalmente famoso. Um livro que se estende além de qualquer categorização óbvia, podendo ser compreendido como um tratado científico sobre o solo e o povo nordestino ao mesmo tempo em que relata a luta pela sobrevivência de uma cultura intimamente ligada ao período medieval lusitano sob o domínio dos mouros.

Antônio Conselheiro, o líder da Guerra de Canudos relatada no livro era sebastianista, acreditando no retorno do rei português D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Quibir contra os invasores mouros em 1578.

Este movimento é uma forma tradicional lusitana de expressar o seu descontentamento com o sistema político vigente, ligada de maneira visceral ao arcabouço místico que configura o caráter da nação sertanista.

A história deste livro tem início quando o autor foi convidado pelo jornal O Estado de São Paulo para fazer a cobertura do final do conflito como correspondente de guerra.

Sua angulação, a princípio republicana percebia os revoltosos como monarquistas que buscavam a restauração deste regime no Brasil. Termina sofrendo um verdadeiro choque que provocará a ruptura com todas as suas teorias anteriores.

Euclides entra em contato com uma realidade completamente diferente daquela que havia previsto: um povo castanho e sofrido sobrevivendo no interior, diferente do litoral economicamente mais avançado. Essa disparidade se mantém até os dias atuais, o que reforça a atualidade e o valor desta obra-prima da literatura brasileira.

O livro divide-se em três partes: A terra, O homem e A luta. A primeira é um estudo aprofundado do relevo, solo, fauna, flora e clima. Insere ainda um comentário sobre o impacto da seca na região. Na segunda ele disserta sobre as crenças e costumes do sertanejo e como ele é intensamente afetado pelas características peculiares do local onde reside.

O terceiro trecho narra o que aconteceu durante as quatro expedições que foram enviadas para o arraial de Canudos. O texto descreve com riqueza de detalhes os embates entre os jagunços e os soldados. O autor deixou a zona de guerra quatro dias antes do seu desfecho, chocado com a repressão violenta dos militares.

Os sertões é o retrato de uma nação esquecida e embebida de uma nacionalidade intimamente ligada às suas raízes civilizatórias, reduto da ancestralidade brasileira. Um texto emocionado e poético sobre o encontro com todos os elementos que contribuíram para definir esta raça tão heróica e fiel aos seus princípios.

Um manifesto sobre a condição violenta e amargurada de um povo que sobrevive utilizando um código de valores que os define enquanto representantes de uma essência recôndita que dialoga com o perfil de nossa tradição cultural.

Esta obra sensibilizou a população para que olhasse com mais carinho aquela região que enfrenta uma série de dificuldades, sendo extremamente importante na formação social brasileira.

Euclides da Cunha escreveu também outro importante livro publicado postumamente intitulado À Margem da História, sobre sua viagem ao Alto Purus (rio localizado no Acre) com o objetivo de ajudar na demarcação da fronteira entre o Brasil e o Peru.

Um artista que sempre foi em busca da composição de um painel que melhor espelhasse o potencial presente nas áreas que ocasionalmente recebem pouca atenção, mas que melhor representam a nossa configuração antropológica.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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