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O conceito de família em Arrested Development


A escritora May Sarton afirmou certa vez que “As Nações Unidas são brincadeira de criança se comparadas às lutas, malabarismos e necessidade de compreensão e perdão em qualquer família.” Um ambiente onde todos te conhecem melhor do que você mesmo e é fundamentado por um profundo sentimento de amor e ódio.

Por se tratar de um território emocional e psicologicamente riquíssimo, ele tem sido bastante explorado pelo cinema, literatura e televisão ao longo dos anos. As motivações, maquinações e intrigas são as mais variadas, desencadeando comportamentos inesperados e muitas vezes absurdos.

A série de comédia em questão, criada em 2003 por  Mitchell Hurwitz e cancelada em 2006, ganhou uma quarta temporada na Netflix, que também possui as outras temporadas disponíveis. O que a diferencia de todas as outras deste gênero é a sua narrativa singular e direta. Cada episódio começa exatamente onde o anterior terminou, dando a impressão de que estamos acompanhando uma história. Exibida como se fosse um documentário, ela é narrada e comentada em off pelo cineasta Ron Howard.


 A história gira em torno da família Bluth, famosa pela sua empreiteira que lhes rendeu bastante dinheiro e posição social ao longo dos anos. Quando o patriarca vai preso por acusações de fraude, cabe ao filho do meio Michael, que é o único com bom senso, tentar colocar a casa em ordem ajudando seu pai a sair da cadeia e acertando as contas da empresa.

O grande problema é que sua mãe e seus irmãos continuaram com a vida de excessos a que estão acostumados, pois nunca se envolveram nos negócios da empresa e só queriam saber do dinheiro caindo em suas contas correntes. Além disso, viviam isolados uns dos outros sem manter contato entre si, pois não se suportam. Essa situação de crise subitamente os força a viver novamente sob o mesmo teto, trazendo todo tipo de ressentimentos à tona.

O roteiro constrói com eficiência as diferentes personalidades dos familiares, de modo que compreendemos seu comportamento muitas vezes estranho e exagerado. A irmã do meio Lindsay é uma dondoca dividida entre sua vontade de ser filantrópica e o amor ao luxo que só o dinheiro proporciona. Nesse sentido é mais parecida com a mãe do que gostaria de admitir.O seriado também é famoso por suas citações, muito queridas pelos fãs do mesmo.

O irmão mais velho G.O.B (George Oscar Bluth) é um aspirante a ilusionista, o que na verdade reflete o seu desejo por atenção, especialmente de Michael e seu pai. O caçula Buster viveu sempre sob os cuidados da mãe super protetora e acabou desenvolvendo uma personalidade frágil, incestuosa e instável.

Vale acrescentar que o seriado apresenta na verdade duas gerações da família, já que os dois irmãos do meio foram os únicos a se casar e ter filhos. O filho do viúvo Michael é extremamente manipulado por seu pai enquanto sua prima, filha de Lindsay, é criada com significante descaso pela mãe egocêntrica enquanto seu pai é um psicólogo que abandona sua profissão para seguir seu desejo de atuar, mesmo que fique só na vontade. Isso sem contar os vários personagens icônicos como o advogado Bob Loblaw e o mágico Tony Wonder, dentre outros.

Criativa, inteligente, imprevisível, tragicômica e acima de tudo hilária, essa série sempre foi sucesso de crítica, mas não de público em função de sua montagem não convencional, embora tenha conservado o carinho dos fãs desde que tinha sido cancelada. Agora que ganhou sobrevida, o desejo de acompanhar as desventuras da família Bluth só faz aumentar.

A série está disponível na Netflix.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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