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O eletrônico e o psicológico em Black Mirror


O físico alemão Albert Einstein disse certa vez "É espantosamente óbvio que nossa tecnologia excede nossa humanidade." Cada vez mais somos inseridos em uma realidade virtual que nos preenche e conecta a outras pessoas, alterando assim nosso raciocínio, percepção e comportamento nesse novo contexto que foi gerado a partir da mesma.

A informação dispara numa velocidade nunca antes vista graças à imensa quantidade de aparelhos eletrônicos com múltiplas funções encurtando distâncias geográficas enquanto quase anula a interação interpessoal.

Criada por Charlie Brooker, Konnie Huq e Jesse Armstrong, a série inglesa em questão que já rendeu duas curtas temporadas, narrando seis histórias que utilizam uma certa dose de surrealismo para incitar a reflexão sobre a influência deste universo digital em nossas vidas,cultivando uma dependência que aliena enquanto gera uma leitura distorcida da nossa realidade. O nome faz referência à tela preta tão comum em celulares, BlackBerrys e Ipods.

 No primeiro episódio, a princesa britânica é seqüestrada e a única exigência para libertá-la é que o primeiro ministro faça sexo com uma porca em rede nacional. Somente uma cópia é entregue especificamente para o intimado, mas inexplicavelmente o vídeo vaza na internet gerando inúmeras repercussões.

 A segunda narrativa gira em torno de um futuro alternativo, onde a energia é gerada por pedaladas em bicicletas ergométricas, o dinheiro é virtual, os obesos são explicitamente discriminados e segregados, considerados socialmente inferiores. Todos são solitários e constantemente bombardeados por publicidade em gigantescos painéis de vídeo.

Outra história gira em torno de um dispositivo fictício chamado “grão”, que é inserido subcutaneamente atrás da orelha. Através dele é permitido gravar em vídeo todas as nossas memórias, arquivadas caso o usuário queira rever depois sozinho ou em público, acoplando o mesmo em qualquer televisão.

Uma visão ácida da nossa conjuntura, onde nada é original nem autêntico. Tudo é comercializável e superficial. A solidão individual mascarada pela falsa impressão de cumplicidade através dos cliques, das curtidas e dos tweets. Praticamente já não há mais privacidade e ninguém está seguro. Todos estão expostos. O mundo virtual como o ambiente propício para a manipulação comportamental e política.

 A série traça uma interessante batalha entre o analógico e o digital. Por mais que tente, um não consegue suprimir o outro, pois felizmente nada substitui o contato humano, a saudade e o amor. Apesar de absorvidos pelas novidades tecnológicas, precisamos nos sentir vivos e dar um sentido à nossa existência.

No fim de tudo, continuamos desejando as mesmas coisas desde o início dos tempos: confirmação pessoal, carinho, companhia e conforto nos momentos difíceis. A mídia e o todo o ambiente virtual podem nos entorpecer durante um período de tempo, mas não para sempre. As temporadas encontram-se disponíveis na Netflix.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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