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Trem noturno para Lisboa

Um simples, discreto e recluso professor acorda pela manhã e inicia suas atividades cotidianas, como se aquele dia fosse um dia qualquer. Ele acorda, toma seu chá, se arruma e vai para mais um dia comum de trabalho. Mas durante o seu caminho habitual, quando ele começava a pensar que seu dia iria ser como qualquer outro, ele se vê em uma situação totalmente inusitada para um homem tão comum, tão recluso e tão chato (como ele mesmo se denominava). Aquele típico homem vê uma mulher que está prestes a cometer um ato suicida comum, se atirar de uma ponte.


Talvez aquele momento, aquele instante de “aventura” tenha sido o fato vivenciado por ele, mais interessante de sua vida. E em um momento heroico de sua parte, ele corre em direção aquela quase suicida e a salva. Começa a chover, e o professor, com toda a sua delicadeza, conduz aquela jovem mulher ao abrigo mais próximo que ele poderia pensar naquele instante. Ele a conduz a sua escola, especificamente a sua sala de aula. Onde seus alunos fazem faces de espanto ao verem aquela mulher jovem toda encharcada ao lado de seu professor típico, previsível e chato.

Após se acomodarem dentro da sala de aula, tirarem seus casacos encharcados pela chuva, e fingirem que está tudo em perfeita ordem, a jovem moça sai da sala, sem dizer uma palavra, sem se quer levar seu casaco ou se despedir daquele velho homem que lhe ajudou. Ele, ao ver que ela partiu, sai em disparada levando o seu casaco tentando alcança-la, mas ela desaparece. Ele, em uma atitude humana típica, vasculha seu casaco em busca de informações sobre a jovem moça, mas não há nada, nada naquele casaco, exceto um livro, um pequeno livro, que parece antigo e que para a surpresa do professor está em português, o livro é “Um Ouvires das Palavras” do escritor Amadeu Inácio de Almeida Prado.


E assim termina uma das primeiras partes do filme Night train to Lisbon (Trem Noturno para Lisboa), de 2013 baseado no livro do escritor Peter Bieri com o meu título. A partir desse momento começa a história do filme, aquele previsível, recluso e discreto homem começa sua aventura para descobrir sobre aquela misteriosa moça e sobre o autor que teve a sensibilidade e genialidade de escrever palavras tão profundas, do qual o professor se deslumbra. Ele então pega um trem para Lisboa e a partir daí começa sua jornada investigando e descobrindo segredos do médico e intelectual português, Amadeu Inácio de Almeida Prado, que era contra a ditadura salazarista (1933-1974), contra as repressões e injustiças de um mundo que não ligava para os indefesos e desfavorecidos.

O filme tem muitos flashbacks, relatando todos os fatos vividos por Amadeu (interpretado pelo ator Jack Huston, Pride and Prejudice and Zombies e Bem-Hur), e ao passar de cada descoberta que o professor suíço, Raimund Gregorius (interpretado pelo ator Jeremy Irons, Batman v Superman: Dawn of Justice e The Borgias) faz ao longo de sua investigação, ele descobre segredos antigos, amizades e amores. Talvez o fascínio que o professor teve por Amadeu se dê pelo fato de ele mesmo se caracterizar um homem previsível, chato e metódico. Ele vê em Amadeu talvez um homem que ele poderia ter sido e uma história que ele poderia ter vivido. A história entra tão profundamente na vida de Amadeu, que por um instante esquecemos da jovem moça quase suicida, que somente reaparece no final com uma revelação e uma conclusão para o professor.


É um bom filme, a história é tratada de forma bem ampla e aborda fatos interessante sobre os momentos sombrios vividos pelos portugueses na ditadura. Acho que o fato de ter aprofundado muito dentro da história da vida do Amadeu fez com que se esquecesse a história do professor, que pelo meu ponto de vista deveria ter sido abordada.


Para aqueles que se interessarem pelo filme ele está disponível na Netflix.
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