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A insustentável leveza do ser


A condição humana sempre foi alvo das reflexões do escritor Milan Kundera. Em suas obras ele intercala a narrativa com ensaios existenciais sobre as escolhas e caminhos em nossa vida, a forma como nossas atitudes nos definem, expondo nossa personalidade àqueles que compartilham do mesmo nicho social.

A respeito do livro que leva o mesmo nome da seguinte projeção, o autor Italo Calvino escreveu: "O peso da vida, para Kundera, está em toda forma de opressão. O romance mostra-nos como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação - as qualidades de que se compõe o romance e que pertencem a um universo que não é mais aquele do viver".

O filme consegue transmitir essa mensagem, mostrando a história de Tomas, um médico mulherengo cujo relacionamento mais longo é com a artista plástica Sabina, a única mulher que o compreende, pois também não gosta de se envolver com ninguém.


Certo dia o doutor é enviado a um SPA para fazer uma cirurgia e lá se envolve com Teresa, uma tímida garçonete. Dias após o seu retorno ele recebe a visita da garota que acaba se mudando para sua casa e alterando toda a sua rotina.

Aquele que vivia de forma frívola, aproveitando os pequenos detalhes sem abraçar nenhum tipo de compromisso de repente está morando com uma mulher e um cachorro. Uma série de mudanças começa a acontecer em sua vida e ele percebe que está na hora de tomar decisões sérias que irão refletir em sua conduta como profissional de medicina e como ser humano.

Ambientada na Tchecoslováquia de 1968, a narrativa mostra a violenta repressão russa no país, decorrente da Guerra Fria, com tanques invadindo a capital em plena madrugada e soldados confiscando passaportes.

Vale mencionar a função que a câmera fotográfica exerce na projeção, como se a mesma revelasse a crua natureza das pessoas e dos fatos.

Importante ainda o comentário de Sabina a respeito da crescente tendência da sociedade pós-moderna em funcionalizar e cretinizar toda forma de pensamento criativo ou independente, inibindo toda forma de individualização que possa surgir.


Tanto o livro quanto o filme apontam para o paradoxo entre a leveza e o peso, que se repelem e se atraem. Viver sem “amarras” é libertador, mas bastante arriscado, pois nada é definido e não há como se relacionar com outras pessoas num sentido mais profundo, o que denota uma experiência bastante solitária.

Quando estabelece uma conexão mais profunda com Teresa, o médico começa a entrar em contato com sentimentos ainda inéditos para o mesmo, tais como ciúmes e solidão. Todas estas novas percepções influenciam em suas resoluções que contribuem para seu amadurecimento neste sentido.

Tomas não é o único personagem que sofre transformações a longo da narrativa. A garçonete que vira fotógrafa aprende bastante a respeito da natureza humana, mas não altera sua essência frágil, doce e introspectiva porque sabe que tais traços revelam sua personalidade. Sabina também termina revelando seu lado inseguro ao longo da história.

O elenco mostra que a excelência dos atores Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche vêm desde cedo, interpretando o casal de protagonistas de forma ímpar. Lena Olin também merece destaque revelando todas as facetas da enigmática artista e confidente do médico.


O cineasta Philip Kaufman conseguiu adaptar de forma bastante fiel o espírito e a mensagem do livro que mostra um homem que procurava todas as infinitas nuances da essência feminina e terminou encontrando todas elas numa só mulher, que lhe dava tudo e só pedia um pouco de carinho e atenção. Daí a relação tão forte da moça com a cadela Karenin.

Um belíssimo embate de personalidades que se amam e se confrontam, gerando tantas leituras que cada uma delas revelará novos detalhes a serem notados. Desta forma o livro e a película terminam como experiências que se completam.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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