Ads Top

A rebeldia contra o sistema em Clube da Luta



É estranho que poucas pessoas reflitam sobre o papel histórico de nossa geração. Quem somos? De onde viemos? Qual será nosso futuro? Nada disso parece importar.O presente é prioridade, onde a elite abastada frui o seu narcisismo sem analisar cuidadosamente o estado de caos que enfrentamos e que só tende a piorar. O filme em questão faz um raio-x deste painel e o expõe de forma crua, como poucas vezes tem sido feito.

A adaptação do romance de Chuck Palahniuk mostra a trajetória de um analista de seguros que enfrenta uma grave crise de insônia. Consumidor compulsivo consegue tudo o que o dinheiro pode comprar, mas não alcança paz de espírito. Começa a visitar grupos de ajuda a pessoas que possuem problemas físicos diversos e o amor incondicional deles por estranhos é tão puro que ele termina ficando viciado por essa descarga emocional.

Sua dificuldade foi parcialmente resolvida, mas ele ainda sente que está vivendo automaticamente, sem desejos nem conquistas.Tudo em sua vida é consumível e descartável.


A solução aparece em uma de suas inúmeras viagens de avião, quando conhece Tyler Durden, que mudará toda sua noção existencial até então.Desfaz-se de todos os seus bens materiais e vai morar com o novo amigo em uma casa abandonada.

O caminho para a realização espiritual do protagonista é através de sua autodestruição. Um dia, depois de uma noite de bebedeira, começa a brigar sem motivo nenhum e descobre uma maneira de aliviar suas tensões. Nasce então o Clube da Luta, onde estranhos se enfrentam à noite pelo puro prazer de aliviar suas angústias e amarguras.

Gradativamente, o que era apenas uma forma de “relaxamento” acaba se tornando uma seita fundamentalista e ganhando proporções assustadoras. O protagonista tenta reverter o processo, mas é então que ele percebe o quão visceralmente preso está a tudo isso.

Este filme não poderia ser mais atual, pois mostra o estado de carência emocional de uma sociedade pós-moderna que não enxerga outro objetivo que não seja o proposto pelos grandes conglomerados capitalistas. O personagem principal não tem nome, reforçando a ideia do indivíduo homogeneizado dentro do contexto em que vivemos.
 

Em certo momento Tyler Durden diz para a câmera: “você não é o seu emprego, nem o que você ganha, nem o carro que dirige, nem as calças que veste!”, mandando uma clara mensagem ao espectador.

Dirigido por David Fincher, que já tinha apresentado um filme tão impactante quando este (“Seven - Os sete crimes capitais”), a película expõe toda a situação de decadência e desespero que se esconde por trás de uma mentira que preferimos acreditar para não nos perdermos em questionamentos que desmoronariam tudo aquilo que acreditamos como verdade.

A montagem merece aplausos, pois ajuda a construir a psique do protagonista e compreender a revelação no ato final, o que exige a percepção de detalhes ao longo da narrativa.O elenco também está de parabéns. Edward Norton está ótimo como sempre e Brad Pitt mostra que sabe atuar quando bem dirigido.

 Numa época em que o tempo parece escorrer como areia por entre nossos dedos, é interessante analisar películas como esta para que possamos repensar nossos hábitos e ver se estamos consumindo ou sendo consumidos por todos os bens materiais que nos rodeiam.


Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

Tecnologia do Blogger.