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Chinatown e sua perfeição como filme noir


O roteiro da película em questão encontra-se em grande parte dos manuais de roteiros espalhados pelo mundo, em função de sua estrutura perfeita, complexa, repleta de reviravoltas e diálogos memoráveis.

O filme mostra a trajetória do detetive particular J.J.Gittes, que recebe a visita de uma mulher que deseja contratá-lo, pois acredita que seu marido, o engenheiro-chefe do Departamento de Águas e Energia de Los Angeles, tem um caso. Porém, ele logo descobre que sua cliente na verdade era uma farsante, mas a verdadeira esposa do mesmo o encontra. Quando o marido aparece morto no reservatório de água da cidade, Gittes percebe a gravidade do caso.

Na medida que a investigação se aprofunda, o detetive acaba se envolvendo numa conspiração que tem interesses ilícitos em terras próximas ao reservatório.

Dirigida com excelência por Roman Polanski (que também faz uma pequena participação em uma seqüência, cortando o nariz de Gittes com um punhal) a projeção traz todos os elementos clássicos do cinema noir, como os chapéus, a música, os cigarros e a entonação dos diálogos. Além disso, apresenta aquilo que torna este gênero tão fascinante: o envolvimento com uma enigmática femme fatale, aqui interpretada pela belíssima Faye Dunaway.

O elenco dispensa comentários. Além dos dois nomes previamente citados, Jack Nicholson está perfeito como o protagonista, interpretando um investigador distante e ao mesmo tempo vulnerável. John Huston também está fabuloso nas poucas, mas cruciais seqüências em que aparece.
É interessante pontuar que a narrativa segue do ponto de vista do detetive, o que torna a história fascinante e instigante, pois o espectador termina sendo convidado a decifrar o mistério apresentado junto ao protagonista.

As inúmeras reviravoltas nunca se tornam cansativas, sendo transmitidas de forma fluida ao espectador no decorrer da narrativa intrínseca e somente enriquecem a complexidade da trama, realçando a tridimensionalidade do caráter humano dos personagens envolvidos , algo comum ao gênero, que teve início com o escritor Edgar Alan Poe, sendo seguido por outros grandes, tais como Dashiel Hammett e Raymond Chandler.

O número de qualidades da obra não se resume apenas ao resgate da nostalgia, à fotografia, ao roteiro e ao trabalho de direção. Não há como não citar a belíssima trilha-sonora de Jerry Goldsmith, que sem dúvida faz parte de qualquer compilação de seus grandes trabalhos no cinema, criando um clima místico e tenso fundamental à história.

Contando com um desfecho surpreendente e trágico, “Chinatown” é um clássico que merece ser revisitado, especialmente nos dias atuais, onde a trama dos exemplares deste gênero é simplesmente ignorada, priorizando tiroteios e explosões sem sentido. Um filmaço que prende pela riqueza da trama e das interpretações. Cinema feito por amor à linguagem e não pelo dinheiro das bilheterias.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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