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Disque M para matar



O cineasta inglês Alfred Hitchcock recebeu a alcunha de “mestre do suspense” por suas histórias de mistério engenhosamente construídas que exigem a atenção do espectador a cada detalhe, exibindo as peças do quebra-cabeça para depois montá-lo de forma sutil ao longo da narrativa.

A película a seguir, adaptada da peça de Frederick Knott, apresenta Tony Wendice, um ex-tenista que, ao descobrir que sua esposa o traía com um escritor de romances policiais, resolve chantagear um velho conhecido para que ele a mate.

Todos os passos são meticulosamente calculados pelo marido, mas quando sua mulher termina matando o assassino em legítima defesa ele se vê forçado a mudar de estratégia, plantando pistas no local para incriminá-la.



Margot é condenada e a data de sua execução marcada, mas seu amante e o Inspetor Hubbard não se dão por convencidos e continuam investigando para descobrir o que realmente aconteceu naquela noite.A trama é incrivelmente bem traçada e Tony é um personagem formidável. A frieza com que calcula cada passo e seu raciocínio rápido diante de cada imprevisto é impressionante, podendo ser comparada à genialidade maquiavélica do Ricardo III de Shakespeare.

Todo grande personagem merece um antagonista à altura e o Inspetor o desempenha de forma magnífica e seu pensamento ágil não deixa escapar nem um detalhe, obrigando o verdadeiro criminoso a ficar sempre atento e cobrindo suas pistas.

A montagem é primorosa e cada take apresenta um elemento que será trabalhado ao longo da projeção, exigindo um carinho especial na apreciação da mesma. A agilidade dos diálogos enriquece a narrativa, trabalhando todas as possíveis versões do ocorrido.

O elenco merece uma menção honrosa, com destaque para a belíssima Grace Kelly, interpretando uma Margot que embora envolvida com outro homem ainda ama muito o marido e não hesita em seguir suas instruções para responder as perguntas da polícia. Outro destaque vai para Ray Milland que mostra um Tony cínico e calculista, sendo impossível não admirar sua engenhosidade apesar da cruel natureza de seus atos.


É interessante notar que o diretor usa o plano aberto na maior parte do filme, apresentando o cenário como o palco de um teatro onde o drama e a trajetória dos personagens vão sendo expostos. Esse tipo de enquadramento é interessante porque permite que analisemos as diferentes impressões dos envolvidos à medida que a narrativa avança.

Vários filmes e obras literárias já esmiuçaram a respeito da análise do crime perfeito. Desde o romance “Crime e Castigo” de Fiodor Dostoievski o homem tem se perguntado se é possível, tendo sido apresentadas desde então várias leituras diferentes. A película em questão também o faz de forma ímpar, com o refinamento próprio deste cineasta. 

É através de clássicos como este que percebemos como uma história intrigante deve ser contada, usando os elementos apresentados de forma simples e efetiva. Sua leitura original e brilhante só enriquece a cada leitura.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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