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Culinária e feminismo em Julie & Julia


A culinária é uma arte que exige extrema dedicação e carinho.  Não basta dominar a técnica, é preciso compreender como os ingredientes se relacionam e como cada um contribui para a composição do prato.

É importante ainda ter consciência de que cozinhar deve ser sempre prazeroso.Criar ou seguir uma receita demanda uma entrega ao sabor dos alimentos, acompanhar  a sua dança enquanto eles se fundem numa combinação única e especial.

Baseada no livro homônimo de Julie Powell, a narrativa desta película acompanha a trajetória da autora desta obra, uma mulher insatisfeita com seu emprego burocrático em uma agência do governo americano (criada para lidar com os parentes das vítimas do 11 de Setembro) que resolve fazer todas as 500 receitas descritas em “Dominando a Arte da Cozinha Francesa” durante um ano e documentando todo o processo em um blog, como uma espécie de terapia que a ajudará a encontrar sua verdadeira vocação e identidade.

 As instruções seguidas à risca pela moça foram escritas pela notória Julia Child no final da década de 40 na França, enquanto ela acompanhava o esposo que na época trabalhava como embaixador dos Estados Unidos.


A projeção mostra a jornada dessas duas mulheres, que mesmo vivendo em diferentes contextos tinham muito em comum, como o apoio incondicional de seus maridos e uma enorme paixão pela comida, além das críticas dos pais e uma constante frustração com o mercado editorial.

A montagem da diretora Nora Ephron é eficiente mostrando de forma alternada a ascensão das cozinheiras, traçando um paralelo entre elas. A delicada química dos ingredientes estabelece um diálogo e cria uma interessante conexão que ultrapassa a sala de jantar.

Vale apontar que enquanto uma vai gradativamente transformando-se em uma “celebridade virtual” a outra vai ganhando espaço numa escola de culinária, território até então ocupado exclusivamente pelo gênero masculino.

Interessante comentar também que Julie tem uma séria tendência a dramatizar grande parte dos eventos de sua vida enquanto sua mentora possui uma postura quase sempre positiva, mesmo diante dos piores obstáculos.


A diretora ilustra ainda o curioso contraste entre os dois cotidianos. Julia busca uma ocupação para escapar do tédio enquanto sua admiradora precisa manter seu emprego diário para colaborar no orçamento da casa.

A disparidade de tempos históricos contribui para destacar o valor da obra daquela que tornou a encantadora culinária francesa acessível para o público americano, o que causou uma verdadeira revolução no paladar daqueles que verdadeiramente apreciam a boa cozinha.


O elenco traz as excelentes performances de Meryl Streep, Amy Adams e Stanley Tucci, entre outros nessa cativante história sobre duas mulheres que enxergaram na comida o caminho para sua realização profissional e espiritual.

Um filme sobre como paladar pode inspirar a alma, transcendendo tempo e espaço enquanto cria um canal de comunicação entre duas pessoas que compartilham uma só sintonia.


Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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