Ads Top

Filosofia e Psicanálise em "Quando Nietzsche chorou"


Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um dos mais importantes filósofos existencialistas alemães, tendo escrito sobre a necessidade humana de libertar e seguir seus desejos e suas necessidades para encontrar um sentido para a própria existência. Além de um brilhante pensador, era também um homem emocionalmente intenso que tinha seus momentos de conflito e dúvida, analisados nessa belíssima projeção.

Ambientada em 1882 e baseada no livro homônimo de Irvin Yalom, a narrativa acompanha o médico Josef Breuer, que é convencido pela poetisa Lou Salomé a cuidar do filósofo (ainda pouco conhecido na época) que estava sofrendo de uma depressão profunda e pensando em se matar e a culpando por tê-lo rejeitado. 

O tratamento seria feito através de conversas, um método inovador na época (que mais tarde seria conhecido como psicanálise), mas ele não poderia saber que estava sendo tratado, caso contrário a experiência não teria sucesso.


A principio, o doutor não se sente à vontade com a idéia, especialmente pelo final desastroso de sua experiência anterior, mas à medida que vai lendo os livros do pensador e conhecendo sua perspectiva do mundo que o rodeia, vai se interessando cada vez mais e compartilhando seus diagnósticos com seu amigo e médico Sigmund Freud, em início de carreira.

O grande empecilho neste complexo processo é que Nietzsche perdeu a habilidade de confiar em outras pessoas, alegando ter sido traído por amigos (especialmente o compositor alemão Richard Wagner) e a mulher por quem tinha se apaixonado. Para obter sucesso no projeto o Dr.Breuer sugere uma troca profissional, oferecendo a cura física do filósofo por uma orientação de seu espírito, eliminando assim suas angústias pessoais.

Sempre objetivo, Josef acredita estar no controle da situação, criando um ardil que irá exercitar o cérebro do “paciente” para analisar o que o motiva, mas não percebe que está sendo desconstruído pela mente do filósofo.

A película é um ensaio poético sobre as aspirações humanas, as metas que traçamos em nossa mente e que podem ou não corresponder aos nossos desejos, fazendo uma leitura da ideologia de Nietzsche e de suas obras, inclusive a mais conhecida delas “Assim Falou Zaratustra”, sobre um homem que, como ele, estava além de seu tempo histórico.


O filme também apresenta aspectos recorrentes na psicanálise freudiana e é interessante perceber como eles vão brotando ao longo da história de uma forma deliciosamente natural e curiosa, como a análise dos sonhos e o Complexo de Édipo. A declaração do jovem Sigmund a respeito do pensador merece destaque: “ele possui tanto conhecimento da natureza humana que talvez ele seja o melhor analista vivo.”.

O cineasta Pinchas Perry consegue construir de forma clara a crescente cumplicidade entre os dois personagens e convidando o espectador a “entrar no jogo” mostrando os pesadelos que assombram o médico e alternando as diferentes opiniões e julgamentos, o que enriquece a leitura do filme.  

O elenco traz performances incríveis, destacando a de Armand Assante que consegue interpretar uma mente tão perturbada e complexa como a de Nietzsche sem nunca transformá-lo em alguém exagerado ou caricato e deixando aflorar suas fraquezas e mágoas de forma bastante sutil. Outra menção honrosa vai para Ben Cross, já que a transformação de Josef Breuer é um dos pontos altos da projeção e é impossível não comentar a atuação de Katheryn Winnick, que é importantíssima para que percebamos o quanto Lou Salomé é especial, não só para Nietzsche, mas para todo o contexto histórico em questão, tendo em vista seu pensamento original, feminista e extremamente avançado para a época. 

Uma película que demonstra de forma bastante clara que a dor e angústia de algumas pessoas são proporcionais à sua grandeza.

 

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

Tecnologia do Blogger.