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Lirismo e Política em O Carteiro e o Poeta


Muito se comenta sobre a aura do poeta, constantemente colocado num pedestal e quase sempre incompreendido. Geralmente a reação geral é manter um distanciamento respeitoso, pois sua percepção do mundo nos obriga a fazer uma pausa e nos dias atuais o tempo parece escorrer pelos dedos. A seguinte película demonstra o efeito da mensagem poética quando ela encontra alguém predisposto a recebê-la.

Baseado no livro homônimo de Antonio Skármeta, acompanha a trajetória de Mario Ruoppolo, um filho de pescador em uma pequena ilha italiana que consegue o emprego de carteiro exclusivo do poeta chileno Pablo Neruda, residindo temporariamente na região e exilado de seu país pelo ditador Pinochet.

Com o passar do tempo, uma amizade cresce entre eles, bem como a percepção do carteiro que vai se apurando cada vez mais. A princípio, ele enxerga o poeta como alguém que tem o poder de atrair várias mulheres e seu interesse imediato é desenvolver essa habilidade, mas vai percebendo que se trata de algo maior, mais complexo e profundo.

A convivência com Neruda faz com que Mario fique mais atento às belezas naturais de sua ilha e perceba com nitidez a exploração dos pescadores, especialmente pelo Sr. Di Cosimo que usa o fornecimento de água para exercer influência política no humilde vilarejo.

A projeção é uma grande homenagem à obra de Neruda, ilustrando seu lado lírico-amoroso, dedicado à esposa Matilde e expõe a importância de sua influência político-social sobre as massas, sensibilizando a respeito da opressão das classes dominantes.


O filme aponta também que a poesia não é um processo mecânico, deve brotar do interior, exigindo um olhar carinhoso e sensível da realidade ao seu redor. Ensina que uma leitura aprofundada dos versos pede receptividade por parte do leitor e seu impacto pode reverter para uma leitura mais humanista do ambiente, o que por sua vez acarreta um engajamento nas causas sociais. O amor aos pequenos detalhes na pessoa que amamos se revela uma outra consequência.

Assim como no filme “Imensidão Azul”, a trilha sonora e a fotografia espetaculares são um grande atrativo e criam a ambientação necessária para que o espectador seja absorvido pela poesia das imagens. A seqüência onde Neruda e Matilda dançam ao som de Madresselva, cantada por Carlos Gardel, é inebriante.


Os atores merecem uma menção honrosa por seu belíssimo trabalho nessa película, especialmente Massimo Troisi que faleceu pouco após o término das filmagens. Seu Mario cativa o público logo nas primeiras seqüências, com seu olhar sonhador e seu sorriso tímido. Philippe Noiret, além de sua espantosa semelhança física com Neruda traz uma interpretação inspirada do mestre.

Trazendo um sopro perfumado no atual contexto tão direcionado para a funcionalidade prática, este libelo acompanha o tratamento artesanal das palavras, onde é preciso deixar os versos brotarem visceralmente para que a essência da mensagem seja intensificada. Um filme sobre a transcendência e o poder transformador da linguagem poética, seja ela na forma de som, texto ou imagens.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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