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O sentido do amor em Closer



O poeta britânico T.S. Eliot afirmou certa vez que “quanto mais certos estamos de conhecer uma pessoa, mais próximos estamos de nos decepcionar com ela.” Essa citação se encaixa como uma luva no filme “Closer”, onde a desilusão é uma constante durante toda a história.

Adaptada de uma peça de teatro, a película mantém os diálogos secos e cortantes, penetrando no inconsciente dos personagens a fim de alcançar o efeito desejado. As conversas viscerais são um dos grandes destaques do filme, pois a intenção é expor a nossa imersão em uma sociedade de aparências, transbordada em insegurança e solidão.

“Closer” mostra a trajetória de um jornalista escritor de obituários que, mesmo amando sua namorada, acaba se envolvendo com uma fotógrafa artística casada, o que acaba por desencadear uma teia de intrigas entre os quatro envolvidos.O diretor Mike Nichols trabalha com maestria os quatro personagens, permitindo que possamos vislumbrar todas as suas nuances e entender seus respectivos comportamentos.

Daniel é um aspirante a escritor que se deixa levar pelas emoções e sempre segue seus impulsos, enquanto seu rival, o dermatologista Larry, sabe ser frio e manipulador quando quer, pois se considera “um observador clínico do circo humano”.


Um ponto comum aos dois personagens masculinos é o machismo. O escritor não aceita que sua ex tenha alguém depois dele, enquanto o médico é visivelmente agressivo com as mulheres, apesar de nunca ser violento.

As duas protagonistas femininas são igualmente interessantes: enquanto a fotógrafa busca resistir à sedução do jornalista (sempre cedendo a ela), a stripper ama incondicionalmente seu namorado e se mostra carente em grande parte das sequências, mas sua força acaba surpreendendo ao longo da história.

Um ponto interessante do filme é o fato de que os personagens estão sempre surpreendendo o telespectador, já que muitas vezes agem por impulso, culpa ou até mesmo pena. Ninguém é confiável ou condenável.
 

Daniel explica a Alice que prefere Ana porque ela não precisa dele, o que mostra uma necessidade própria nossa de sempre buscar quem é indiferente a nós, um desejo inexplicável, como uma mosca em direção a uma lâmpada, sentimento imortalizado no poema de Charles Baudelaire.

O grande trunfo de “Closer” é colocar o sentimento amoroso no microscópio, expondo todo tipo de reações que o mesmo provoca, desde a impulsividade romântica até a vingança mais fria e cruel, tecida com calma para ser degustada lentamente depois. Mostra também como o ser humano acaba traído por suas próprias fraquezas e incertezas, como William Shakespeare tinha provado em tragédias como “Othello” e Mozart através de sua ópera “Così fan tutte” (Assim fazem todas), cujas árias estão incluídas na belíssima trilha sonora.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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