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Um tributo a Mazzaropi em "Tapete Vermelho"




Produtor, diretor e protagonista de seus filmes, Amácio Mazzaropi possui uma vasta filmografia que inclui clássicos do cinema brasileiro como “Jeca Tatu” e “Sai da Frente!”, feitos na década de 50, durante o sucesso da indústria cinematográfica Vera Cruz em São Paulo.

Tais projeções são comédias que retratam a sinceridade e a pureza do homem simples frente ao raciocínio metódico e capitalista de uma sociedade preconceituosa e egoísta. A película a seguir rende homenagem a este cineasta, atualizando sua mensagem e seu estilo.

A narrativa tem início no interior paulista onde Quinzinho, dono de um pequeno sítio na região de Formoso decide levar seu filho para assistir a um filme do referido ícone brasileiro numa sala de cinema, como seu pai fazia com ele quando era pequeno.

Apesar da resistência da esposa o trio parte junto com o burro Policarpo em busca de um lugar que possa atender esta demanda.


Seguindo a estrutura de um road movie, a projeção acompanha as desventuras que o grupo enfrenta muitas vezes por estranhamento, outras pela falta de malícia do protagonista, pois este sempre viveu imerso em uma realidade onde sempre houve sinceridade e respeito, fazendo contraste com a mentalidade cretina e superficial da cidade.

O diretor Luiz Alberto Pereira retrata de forma bem-humorada a disparidade entre o rural místico, cercado de folclore e o urbano pragmático, raso.

A projeção inclui também de forma bastante fluida um comentário sobre a importância do movimento dos sem-terra, ilustrando inclusive sua violenta repressão.

Aponta ainda para a ação das igrejas evangélicas, que transformam salas de exibição em templos de oração, o que dificulta de forma considerável a distribuição cinematográfica em lugares remotos.

Quinzinho é um genuíno personagem dos filmes de Mazzaropi: embora feliz com sua vida na roça, vive sonhando com outros lugares e outros tempos, fazendo contraponto com a esposa Zulmira, sempre desconfiada e cética.


Vale comentar a desmistificação que o filme faz do camponês brasileiro. O protagonista tem pleno conhecimento de sua posição social e se orgulha dela. Seus comentários fundamentados na pura observação têm sentido e levam a uma reflexão sobre os estranhos hábitos cotidianos.
 
Nesse ponto vale realçar o excelente desempenho de Matheus Nachtergaele, que mimetiza a entonação de voz e o gestual próprios de Mazzaropi, reforçando a homenagem a um dos grandes nomes do cinema brasileiro. A atriz Gorete Milagres também merece destaque ao retratar a esposa já farta dos devaneios do marido, mas que ainda assim o ama e o apóia em suas decisões.
 
Um filme belíssimo que cuida de um tema puro e honesto, resgatando um período onde as histórias tinham uma preocupação maior com o desenvolvimento e amadurecimento dos personagens, relacionando suas motivações com as frustrações e anseios que enfrentamos diariamente, o que denota uma genuína interação entre a obra, o autor e o seu público.


Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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