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A Guerra do Vietnã e Kubrick em Nascido para Matar




A Guerra do Vietnã foi um evento importantíssimo dentro do contexto da Guerra Fria, tendo sido um exemplo clássico da política intervencionista dos Estados Unidos que ficou famoso por terminar com a derrota dos mesmos. Desde então inúmeras versões do conflito foram retratadas no cinema, algumas vangloriando “o bravo esforço daqueles que lutavam pela liberdade contra os diabólicos comunistas” e outras mostrando o que realmente aconteceu, expondo a ferida para que ela não se repita.

Baseado no romance “Os temporários” de Gustav Hasford, o filme mostra a trajetória do fuzileiro naval Joker, desde o seu treinamento até o combate na guerra. A primeira seqüência que mostra os soldados raspando a cabeça pode ser compreendida como uma metáfora do abandono de suas identidades anteriores, já que o intuito do exército é que eles renasçam como máquinas prontas para matar a qualquer custo.

O condicionamento é pesado e um exemplo da violência desse processo é a metamorfose sofrida pelo soldado Gomer Pyle, uma pessoa sorridente que ao final do treinamento transformou-se em alguém desequilibrado com sérias tendências psicóticas.
 


O diretor Stanley Kubrick apresenta com genialidade a assustadora lavagem cerebral a que os soldados são submetidos. Em certo momento dois assassinos famosos são usados como exemplos a serem seguidos por sua destreza ao manipular o rifle.

Na segunda parte da projeção vemos os fuzileiros no contexto do combate. Joker tornou-se um correspondente de guerra, o que é interessante, pois permite ao cineasta expor a manipulação de notícias justificando a ação do exército para os jornalistas civis.

Outro ponto a ser comentado é o desprezo dos soldados americanos pelos cidadãos locais, já que acreditam estar lutando pelos asiáticos, que “deviam mostrar seu agradecimento por aqueles que buscam conquistar sua liberdade”, o que também denota o caráter atual da projeção.

A visão do jornalista/fuzileiro permite ao espectador uma melhor percepção do genocídio e a expressão de horror do personagem diante de uma enorme vala de vietnamitas mortos e cobertos com cal mostra com clareza o grau de violência que foi empregada.

A insensibilidade e falta de noção dos combatentes americanos é impressionante. Em certo momento eles se comparam ao lendário cowboy John Wayne exterminando índios. Essa percepção fica mais clara quando os mesmos são entrevistados por uma equipe de cinegrafistas. A maioria não sabe o que responder e quando falam geralmente é algo idiota ou racista.
 

Uma característica inédita na seguinte película é que esta foi basicamente a única a mostrar o combate urbano no Vietnã, sendo que a maioria dos filmes deste gênero prefere mostrar os tiros e bombas na selva, isolando e aprisionando o conflito dentro de seu tempo histórico. Trazendo a luta armada para a cidade, Kubrick expande a crítica à ação intervencionista americana, esclarecendo que nada mudou com o tempo.

 Ao final da narrativa não há uma sensação de conquista, somente o sacrifício de vidas humanas por uma causa perdida. A essência humana se perdeu em algum lugar no tiroteio e tudo o que resta é a esperança de retornar o quanto antes.

A projeção traz excelentes atuações, com menção especial para Matthew Modine interpretando um Joker que segue as normas do exército, mas não abraça sua ideologia, transitando bestificado por aquele ambiente corrosivo e Vincent D'Onofrio, já que a transformação de Gomer é um dos pontos altos do filme, mostrando o efeito da tortura psicológica que faz parte do treinamento dos fuzileiros.

Intenso e original, este filme mostra de forma gradativa a degradação do espírito humano e o grau de angústia e horror que derivam da chacina imperialista americana.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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