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Mulheres e vinho em Sideways


Há tempos atrás escrevi um ensaio relacionando o universo feminino com o vinho: para apreciar ambos apropriadamente é preciso se perder em seu aroma, deliciar os pequenos detalhes que os caracterizam para finalmente transcender durante a degustação. Sem contar que só melhoram com o amadurecimento através dos anos.

“Sideways” compartilha desta ideologia, narrando a trajetória de Miles, um professor de Literatura e aspirante a escritor que resolve levar seu amigo Jack, um ator decadente, para uma “última semana de liberdade” viajando pelas vinícolas da Califórnia antes que este se case.

O problema é que a dupla tem objetivos diferentes:  enquanto um planeja um roteiro de degustação, comendo, bebendo e jogando golfe, o outro planeja fazer sexo com quantas puder antes do casamento.

A dicotomia apresentada é interessantíssima e enriquece bastante a narrativa. Enquanto Miles preza pela apuração, curtindo as fragrâncias e peculiaridades de cada taça, Jack simplesmente bebe como se fosse água e mascando chiclete, o que reflete em suas percepções das mulheres. O professor é mais gentil e preza uma boa conversa (regada a vinho, obviamente). O ator, por outro lado se interessa mais pelo prazer carnal, sem rodeios.
 

Dirigido por Alexander Payne, o filme trabalha com cuidado a natureza dos personagens, mostrando as pequenas idiossincrasias de cada um. É bacana perceber a predileção do escritor por palavras cruzadas (faz até enquanto dirige!) e como o ator está sempre cuidando da própria aparência.

Vale comentar a opção do cineasta de dar um tom pastel, meio sépia, à projeção, fazendo uma referência bacana aos filmes da década de 70, que usavam essa mesma matiz. O resultado é belíssimo, realçando um cenário espetacular.

 Miles é um personagem fascinante e brilhantemente interpretado por Paul Giamatti: depressivo e com baixa auto-estima, finge a princípio não estar interessado na opinião dos editores sobre seu livro para depois revelar o contrário.A cena em que ele escolhe o bolo escuro ao invés do claro diz muito a respeito de sua personalidade.

Destaco também a sequência em que o mesmo discursa a respeito da razão de sua preferência pelo vinho Pinot (vinho de uva com casca fina, temperamental e sensível), quando na verdade está falando de si mesmo.

Jack por sua vez é imaturo e bem intencionado, mas seu papel é importante: fazer o professor “sair da concha”, já que o mesmo nunca superou o divórcio.
 

O elenco feminino também está muito bem representado na película. Maya, a garçonete e interesse romântico do escritor é uma personagem muito atraente tanto no sentido físico quanto intelectual, sendo fácil perceber sua relação de afinidade com ele, especialmente na sequência em que ela disserta sobre o “ciclo de vida do vinho” e todas as pequenas nuances que o acompanham. Stephanie, a amante de Jack também surpreende pelo gosto refinado apesar de apresentar um comportamento mais descontraído.

O diretor ainda inclui uma pincelada crítica ao mostrar um casal fazendo sexo de forma grotesca enquanto George Bush conversa na televisão durante uma partida de golfe.

Chamo atenção ainda para o fato de que o vinho e a comida pioram de qualidade à medida que a situação emocional dos personagens deteriora.

São todos esses pequenos e enaltecedores elementos que fazem de “Sideways” um filme tão marcante. Meu apreço por ele só faz crescer com o tempo, pois cada vez que o assisto percebo um detalhe diferente, um charme que só as grandes películas possuem.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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