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Paternidade e Política em Kolya


A força da linguagem gestual é a essência desta projeção, ambientada em Praga durante a iminente Revolução de Veludo que livrou o país do domínio comunista russo e deu origem à República Tcheca.

O filme narra a história de Franticek Louka, um violoncelista recluso,  expulso da filarmônica por não aceitar o controle soviético.Mulherengo e solteiro convicto, vive em dificuldades financeiras, trabalhando como restaurador de lápides, tocando em velórios e dando aulas. As necessidades aumentam a tal ponto que ele acaba aceitando se casar por dinheiro com uma russa, que precisa da cidadania tcheca.

Sua situação melhora por um tempo, mas quando sua “esposa” emigra para a Alemanha, deixando seu filho com a avó que enfarta logo depois, ele acaba sendo obrigado a cuidar do enteado, um garoto de cinco anos chamado Kolya, que só fala russo, língua que ele não entende.

O filme mostra a evolução do relacionamento entre duas pessoas que estão presas àquela situação e não tem outra alternativa a não ser aceitar a condição imposta, aprendendo a conviver com ela.

O diretor Jan Sverák investe bastante na linguagem não oral, criando belíssimas cenas que vão traduzindo a gradativa confiança que o garoto vai aos poucos depositando em seu guardião. São igualmente riquíssimas as cenas que ilustram a curiosidade do menino e seu assombramento diante de todas as novidades que o cercam.

É bacana perceber como Louka está sempre preocupado em criar o melhor ambiente possível para Kolya (para que a experiência não atormente sua infância) dando brinquedos e levando-o para passear por vários lugares. Durante esse processo o violoncelista acaba por se redescobrir, diminuindo seu medo de intimidade no relacionamento, que pode ser percebida na sua preferência pelo envolvimento com mulheres casadas.

É impossível não fazer uma referência à “O garoto”, filme icônico do cineasta Charles Chaplin, especialmente pela luta contra o Juizado e a polícia, que suspeita do casamento de Louka e vive pressionando para que o mesmo confesse a verdade.Além disso, a temática é bastante parecida, pois apresenta duas pessoas solitárias aprendendo a conviver juntas e crescendo espiritualmente durante o processo.
 

Em Kolya, ambos aprendem que apesar das diferenças de nacionalidade e idioma, a natureza humana fala mais alto e o instinto de cuidado e carinho prevalece.

Vale a pena ressaltar o contexto histórico, que enriquece a projeção e explica o clima de tensão onde estão mergulhados os personagens, em contraste com a visão idílica do menino, que observa tudo surpreso e só quer voltar para os seus familiares, ainda que comece a gostar de seu novo amigo.

Poético e agridoce “Kolya” é um filme que cativa mesmo aqueles que não apreciam o gênero, pois surpreende pela simplicidade com que afloram os sentimentos.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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