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A cidade enquanto personagem em Manhattan


O cineasta Woody Allen sempre foi apaixonado pela cidade do título e sempre fez questão de frisar referências à mesma em seus filmes. Na película em questão ele não somente a usa como cenário, mas como personagem, metáfora da modernização sublimando a civilização romântica de outrora.

O diretor interpreta Isaac Davis, um roteirista de TV divorciado que namora uma garota bem mais nova que ele (42 enquanto ela 17). Dividido entre a pressão social a que ele mesmo se inflige e o amor que ele sente por ela, ainda precisa lidar com a ex-esposa que está lançando um livro onde expõe sua vida conjugal com ele.

Em meio a tudo isso ainda descobre que seu amigo está tendo traindo a esposa com Mary, uma intelectual pedante. Com o tempo, acaba se envolvendo com ela e ambos resolvem terminar seus relacionamentos anteriores para investir no romance, já que esta se apresenta como uma alternativa convencional e mais apropriada aos padrões sociais.

A dinâmica do casal é interessantíssima, dada à disparidade de percepções a respeito do comportamento humano. É o racionalismo dela contra a sensitividade dele. A diferença de opiniões a respeito de artes também rende ótimos debates ao longo da projeção.


Vale acrescentar também que Mary, apesar de se apresentar como uma pessoa de mente aberta e letrada, sempre diz que “veio da Filadélfia e crê em Deus”, o que pode ser percebido como um conservadorismo enrustido da personagem.

O amor é apresentado como algo descartável e imprevisível, que independe de quaisquer valores sociais ou morais que possam existir.

Apesar de apresentar a cidade como o palco de um teatro social onde o comportamento é regulado por seus próprios habitantes, o diretor mostra o lado pitoresco e tradicional da mesma, com passeios de charrete no Central Park, bares e restaurantes antigos, realçados por uma belíssima fotografia em preto e branco ao lado de uma trilha sonora onde o jazz é soberano, marca registrada nos trabalhos do mesmo.

A seqüência de abertura, onde takes da cidade são acompanhados pela imortal Rhapsody in Blue de George Gershwin é primorosa. Nessa mesma cena também percebemos a dificuldade que muitos escritores têm para achar o início certo de um texto, pois é a partir dele que toda a prosa se desenrolará.


O humor refinado de Woody Allen rende ótimos diálogos, fazendo comentários ácidos a respeito da televisão, da elite pseudo-intelectual e todas as regras de pensamento que regem “o bom senso urbano”. A química entre o cineasta e a atriz Diane Keaton, assim como em “Annie Hall” é um dos grandes destaques do filme, já que a dinâmica das interpretações contribui para a fluidez da narrativa.

Vale comentar como a mensagem do filme continua atual, já que continuamos vivendo dentro de uma realidade onde apesar de todo esclarecimento as pessoas continuam vigiam seus próprios atos, sempre atentas à regularidade e à moralidade de suas ações, sacrificando certas vontades porque tais não se encaixam dentro de um conjunto normativo.

O poeta francês Charles Baudelaire afirmou certa vez que precisamos antes evoluir enquanto seres humanos para depois avançarmos em nível de civilização. A leitura deste filme mostra como os valores mudaram tão pouco.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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