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Amor e Arte em Camille Claudel


A sequência inicial desta película diz muito a respeito de sua protagonista, que por sua vez se encontra em uma vala em Paris, tarde da noite, em meio à neve espessa, pegando barro verde para sua escultura. O ano é 1885.

Extremamente dedicada à sua obra, Camille Claudel busca a orientação de Auguste Rodin, escultor famoso na época e conhecido até hoje por sua estátua do pensador (um homem sentado com o queixo apoiado nas costas da mão). Este por sua vez logo percebe o talento dela e a acolhe como assistente.

Eventualmente acabam se tornando amantes, o que traz uma série de complicações, já que Rodin é casado. Além disso o romance não recebe a aprovação de seu pai (que acredita que ela está se anulando para viver à sombra do amante) e nem de seu irmão, o poeta simbolista Paul Claudel, com quem ela tem uma relação quase incestuosa.


Apesar de tudo o enlace beneficia o casal. Camille aprimora suas técnicas e ganha prestígio, enquanto o escultor redescobre sua paixão pela arte, uma vez que estava muito preso à forma e deixando a essência em segundo plano.

O diretor Bruno Nuytten ilustra com maestria o duelo de estilos. Ela é delicada e passional, se entrega de corpo e alma à sua obra (reparem na cena onde ela escolhe um bloco de mármore para esculpir, acariciando as pedras, até finalmente se decidir pela de consistência mais frágil), sem medo de se arriscar. Seus temas ilustram dor e agonia, a frustração perfumada de beleza. Modela com o coração.

Rodin por sua vez procura ser mais seguro em relação às suas obras, optando por referências neoclássicas, exaltando na maioria das vezes os belos contornos do corpo feminino, já que era mulherófilo.

Neste ponto quero destacar as excelentes atuações de Isabelle Adjani, que mostra uma artista segura de seu valor e disposta a se entregar por sua arte e seu amante. Gerard Depardieu por sua vez exibe um Rodin que tem um carinho imenso pela técnica, confiando mais nas mãos que nos olhos,entretanto dividido entre a opinião pública e seu amor por Camille.

É interessante também notar, ao longo da narrativa, as várias referências históricas apresentadas, tais como a construção da Torre Eiffel em 1889 para as celebrações do centenário da Revolução Francesa, o impacto da morte do escritor Victor Hugo, especialmente nas camadas mais populares e a briga entre os artistas e os fotógrafos que começavam a surgir na época.


Poético e emocionalmente intenso,“Camille Claudel” discursa sobre o compromisso do artista com sua obra, a relação de amor, entrega e cumplicidade e o medo de que a idéia se dissipe no ar, remetendo à dialética do esgrimista do ensaísta alemão Walter Benjamin, onde o artista precisa se esquivar das armadilhas do mercado enquanto luta para que a inspiração não lhe escape.

Ao final da película a artista, como o poeta Baudelaire, ao lado dos pintores Van Gogh e Toulouse Lautrec, acaba corroída por dentro, já que sua alma era pura e passional demais para a Paris Moderna que emergia no final do século XIX. Uma escultora que fez a dor pulsar de forma única nas obras que esculpiu e seu canto agridoce ecoa em sua arte até os dias atuais.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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