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Um sentido para a alma em Flores Partidas


É natural do ser humano buscar um sentido para a própria existência, algo que justifique as escolhas tomadas e suas devidas conseqüências. O curioso é que a grande maioria espera ou acredita que exista uma diretriz racionalizada que indicará as respostas para as grandes dúvidas e frustrações que nos afligem.

A verdade é que os fatos acontecem em nossa vida de maneira aleatória e suas implicações são as mais variadas possíveis, pois suas interpretações estão relacionadas aos respectivos contextos onde estas interferem.

A trama desta projeção acompanha a jornada de Don Johnston, um homem que ganhou uma quantia financeira considerável no ramo da informática a ponto de não precisar mais trabalhar. Solteiro convicto teve inúmeros relacionamentos amorosos, mas nunca se envolveu emocionalmente em nenhum deles. Sua rotina muda quando recebe uma carta anônima rosa dizendo que ele possui um filho com vinte anos de idade e que o mesmo saiu para procurá-lo.


A princípio ele não se interessa, mas seu vizinho Winston é fascinado por decifrar mistérios e traça o roteiro de uma viagem para que ele visite casualmente as namoradas que teve na época a fim de investigar a identidade da mãe de seu possível filho.

Enquanto Don reencontra suas antigas amantes, involuntariamente vai recriando o trajeto de sua existência e as decisões que foram sendo tomadas durante este percurso. Suas diferentes experiências amorosas denotam seus possíveis destinos caso seu envolvimento tivesse sido mais intenso com uma delas.

O cineasta Jim Jarmusch utiliza o potencial simbólico inscrito na cor do enigmático envelope para inserir pequenas pistas no trajeto do protagonista que podem indicar a chave para desvendar o enigma ou se revelarem como simples coincidência, dependendo da leitura dos espectadores.

A película traz uma interessante reflexão sobre nossas atitudes do cotidiano e como elas podem desencadear eventos no futuro que irão refletir nossa essência e caráter.
 

A montagem utilizada mantém o tom agridoce da história conferindo veracidade e fluidez à narrativa. A belíssima trilha sonora contribui para realçar a temática da história de um homem encontrando rastros de seu passado e tentando projetar uma imagem de seu futuro, seja em si mesmo ou em seu provável filho.

Interessante apontar que o protagonista, embora refute a idéia de seu vizinho, não hesita em seguir o esquema traçado por este, pois embora acredite que sua busca não trará nenhum resultado significativo, seu espírito anseia por uma mudança de perspectiva sobre suas ações, especialmente as relacionadas ao seu problema de intimidade numa relação amorosa.

O elenco oferece excelentes interpretações, especialmente Bill Murray que expõe as variadas nuances do protagonista, contidas em grande parte no seu gestual. O grande destaque vai para o invejável conjunto de atrizes como Julie Delpy, Jessica Lange, Chloë Sevigny, Sharon Stone e Tilda Swinton, essenciais num filme que retrata a riqueza da alma feminina.

Uma graciosa obra que infere sobre a urgência de transformação da alma, revelado através de circunstâncias inesperadas, mas necessárias.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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