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A obsessão pela arte em Cisne Negro



O “lago dos cisnes”,composto por Tchaikovsky, é um ballet em quatro atos baseado na versão francesa de um conto de fadas alemão. Conta a história de uma princesa que foi transformada em cisne por um feiticeiro e somente o amor verdadeiro poderia libertá-la.

 A situação sofre um revés quando o príncipe que a salvaria é seduzido pela irmã gêmea da mesma, o cisne negro, deixando para a pobre moça o suicídio como única alternativa de liberdade. A pureza frágil corrompida pela violência passional.

 A narrativa desta película acompanha a trajetória de Nina Sayers, uma dedicada bailarina que deseja muito o papel principal neste clássico que será apresentado pela sua Companhia. O único problema apontado pelo diretor da peça reside no fato de que ela é fria e pragmática demais para interpretar a antagonista, já que a estrela do espetáculo precisa desempenhar as duas performances.

Ela consegue o papel, mas é instruída para acessar seu lado mais passional e imprevisível, ou não conseguirá alcançar a essência sedutora e charmosa da outra personagem.


Consumida por suas incertezas, a dedicada dançarina vai lentamente perdendo sua sanidade, tendo alucinações enquanto busca ser mais espontânea e fiel aos seus instintos. Seu desejo pela perfeição a obriga a seguir um caminho sem redes de segurança, que possivelmente transformará sua vida para sempre.

A montagem do cineasta Darren Aronofsky retrata com perfeição a lenta metamorfose de Nina, cuja devoção é percebida no toque de seu celular e nas horas praticando depois que todos se foram do estúdio.A irritação em sua pele é uma materialização de sua angústia, que vai se agravando com o desenrolar dos fatos.

Interessante apontar também a estreita relação que a protagonista tem com sua mãe, uma ex-dançarina que abandonou a arte para cuidar da filha. O demasiado esforço da garota pode ser entendido como uma maneira de compensar os sonhos dela.

A chegada de Lily, a nova integrante que é a personificação da rival na peça, ajuda a moça a encontrar o espírito livre e sedutor da ave negra e ao mesmo tempo desperta ciúmes na moça, surgindo como a substituta ideal caso aconteça algum imprevisto.

O diretor mostra ainda a curta “vida útil” das bailarinas, que enfrentam a iminência da aposentadoria aos trinta anos, sendo sempre preteridas em função das mais jovens, que possuem mais energia e desenvoltura.


Uma projeção onde a vida imita a arte e vice-versa. O delírio agindo como ponte para encontrar a natureza do desempenho necessário. O sacrifício pessoal para oferecer à plateia algo que elevará seus espíritos e os transportará para uma dimensão de beleza divinal.

O grande destaque no elenco é  Natalie Portman, ilustrando a confusa e frágil protagonista, que se entrega completamente pela beleza dessa arte, a ponto de abstrair sua consciência em prol da dança. O filme traz outras contribuições igualmente memoráveis, como as de Mila Kunis, Vincent Cassel e Winona Ryder.

A técnica não se sustenta sozinha. Ela precisa da paixão para direcioná-la, podendo ser derivada de uma enxurrada de sentimentos conflitantes que traduzem a complexidade da existência.A urgência da ruptura com a segurança emocional para compreender suas verdadeiras motivações.

 Um filme sobre se perder no próprio inconsciente para encontrar o elo em comum com a personagem que interpreta, compartilhando com a mesma suas dúvidas e desejos,amadurecendo com essa experiência para conseguir o objetivo máximo: encantar e seduzir o público.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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