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O mundo prático contra a mente criadora abstrata em 8 e meio


Esse clássico do cinema italiano gira em torno de Guido, um cineasta mulherófilo que está em um “spa medicinal” preparando sua mais recente película de cunho essencialmente autobiográfico.

Preso a fantasias e lembranças, ele está sendo constantemente importunado por sua equipe de filmagem, que lhe cobra uma coerência e uma linearidade pragmática (planos, cronograma, roteiro) que ele não pode dar.

 A partir dessa premissa genial o diretor Federico Fellini cria um libelo sobre a impiedosa cobrança coercitiva de um mundo prático sobre a mente criadora abstrata, que não pode oferecer algo “lógico” ou “racional” porque ela nem sabe como fazer isso! Como traduzir em miúdos a pressão sofrida durante os anos de escola católica ou as fantasias da infância?

Mantendo sempre um fino distanciamento entre sonho e realidade Fellini mergulha o espectador dentro do universo lírico-simbólico de Guido, para que melhor entendamos sua agonia frente à pressão do estúdio, representada pela figura do Comendador, que pode também ser interpretada como uma alusão ao cinema hollywoodiano, investindo rios de dinheiro sem deixar de observar tudo como mero investimento comercial.


A primeira sequência do filme deixa bem clara a posição do protagonista frente àqueles que o rodeiam: em um pesadelo, este quase morre sufocado em seu carro parado no meio de um tráfego congestionado num túnel. Seu desespero contrasta com a indiferença dos outros motoristas. Quando finalmente ele consegue sair do automóvel, começa a voar, mas quando pensa estar finalmente livre é literalmente laçado e puxado para baixo com força, caindo então em queda livre.

Vale acrescentar também que suas fantasias e lembranças não aparecem para ajudá-lo, indicando um caminho, mas sim acabam o confundindo ainda mais. Outro aspecto a ser acrescentado é que o relacionamento de Guido com sua mãe tem algo de edipiano,o que pode ser visto numa cena fantasiosa onde ele a beija nos lábios e esta se transforma em sua esposa Luísa.

Aproveito para comentar a famosa cena entre o protagonista e seu harém, onde é interessante notar que suas fantasias amorosas, ao mesmo tempo em que o vêem como provedor, tratam-no como uma criança, dando banho e o alimentando, como sua mãe fazia quando ele era criança.

Ao final do filme, Guido foi completamente desconstruído e não há quem possa oferecer um caminho ou uma direção além de seu braço direito, uma figura misteriosa que parece conhecê-lo melhor do que ele mesmo e que sempre aparece falando no canto do ouvido.

Este personagem, inclusive é tão interessante que pode ser visto como um companheiro imaginário, já que ele não se relaciona com mais ninguém. 8 ½ , como todos os filmes de Fellini é uma obra que gera inúmeras leituras e esta é apenas mais uma dentre várias outras. Acima de tudo merece ser revisitado e discutido, em vista da riqueza de sua transformadora linguagem poética.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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