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A poética agridoce do mambembe em A Estrada da Vida


O neo-realismo italiano foi um movimento cinematográfico que buscou representar a realidade social e econômica de uma época mostrando-a muitas vezes sem rodeios, enquanto outros optaram por fazê-lo transformando as lágrimas dos infelizes em versos de um poema. A seguinte projeção é um exemplar que comprova essa afirmativa.

A narrativa conta a estória de Gelsomina, que é vendida por sua mãe ao artista mambembe Zampano, a fim de que a mesma tivesse melhores condições de vida na mesma medida que ajudava sua família a ter dinheiro para comprar comida. 

Depois de um treinamento feito com violência por seu parceiro ela vai de cidade em cidade apresentando o show do mesmo, que arrebenta uma corrente usando o tórax.

A disparidade do casal é um elemento interessante, servindo como um excelente estudo de personalidade: ela simpática e risonha, sempre encantada com os menores detalhes e muito receptiva enquanto o outro é exatamente o oposto, de índole violenta e introspectiva.
 

O surgimento de um fanfarrão equilibrista irá questionar as intenções de Gelsomina e elevar sua auto-estima, servindo como alternativa para seu estilo de vida sofrido e o tratamento injusto de seu parceiro, enquanto inquire sobre a razão de ambos permanecem viajando juntos, apesar de todas as desavenças. Ele será o antagonista, que não precisa ser necessariamente o vilão, mas é aquele que trará a ruptura do sentido da narrativa, implicando uma reflexão sobre o mesmo.

Enquanto o relacionamento do casal evolui, o genial diretor Federico Fellini vai apresentando o painel de uma Itália miserável que mesmo apesar de sua condição não perde o espírito de celebração, curtindo sempre que possível o espetáculo, seja ele na rua ou no circo.

Uma sequência interessante que realça o contraste entre as classes apresenta várias pessoas felizes numa festa de casamento para depois mostrar os empregados da mesma comendo em pé por causa do excesso de trabalho.

O cineasta também aponta o impacto do catolicismo na cultura italiana, destacando as procissões religiosas onde praticamente toda a cidade acompanha. A cena em que Zampano tenta roubar os santos de prata das freiras, aproveitando-se do voto de confiança que foi dado pelas mesmas, ilustra o grau de desespero em que o mesmo se encontra o que é uma característica marcante no neo-realismo italiano.
 

O diretor ainda aproveita a trama para trabalhar o universo que é próprio de seu estilo: o circo e mais especificamente o palhaço. Usando a figura do bufão anônimo e da própria Gelsomina ele trabalha a psique daquele que precisa sublimar suas dores pessoais para levar o riso e o divertimento a outros.

A trilha sonora de Nino Rota é especialmente marcante nesta película e a música tema tocada inicialmente no violino e depois no trompete é belíssima. Pessoas de sensibilidade mais aguçada ficarão com ela na cabeça por um bom tempo.

O elenco merece uma menção carinhosa, pois é essencial que ele seja ótimo para que a trama funcione. Anthony Quinn e Giuletta Masina estão perfeitos como o casal de protagonistas.

Apresentando um final poético e trágico, o mestre fecha com chave de ouro trazendo um último recado: é preciso se deixar amar para ser amado.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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