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A visão ácida e poética de Godard em Socialismo


A ideologia criada por Karl Marx e Friedrich Engels nasceu com um propósito humano, de romper as amarras da exploração promovida pelo capital, proporcionando uma liberdade para fazer suas escolhas de trabalho de acordo com as aptidões de cada um.O fim de preocupações com pagamentos de necessidades básicas permitindo que o ser humano explorasse o seu próprio potencial, sem as amarras monetárias.

A deturpação de seus princípios aconteceu principalmente durante o governo de Joseph Stálin na União Soviética e desde então criou-se um preconceito em torno deste sistema de governo que baseia-se na igualdade de direitos e oportunidades, especialmente financeiras.

A seguinte película do genial cineasta francês Jean Luc Godard não pretende fazer uma panfletagem sobre o assunto, mas sim exaltar o vazio capitalista da pós-modernidade. A narrativa se desenvolve em duas instâncias: um cruzeiro de luxo pelo Mediterrâneo e uma casa perto de um posto de gasolina, onde são discutidos ideais revolucionários. A montagem em forma de mosaico combina os diferentes depoimentos dos passageiros com imagens que traduzem uma mensagem, como o cardume de peixes que sugere a união em torno de um bem comum.


O barco reflete a ostentação vazia de um sistema que cria um imenso abismo, favorecendo em demasia uma pequena parcela egocêntrica e narcisista.O tema é tratado de forma bastante sutil, fundamentado pelos depoimentos dos passageiros da nau de diferentes nacionalidades e idiomas que debatem sobre os mais variados assuntos.

O diretor faz uma reflexão sobre a evolução histórica da Europa e seu desbotamento após a Segunda Guerra Mundial, onde recebeu ajuda dos Estados Unidos para se reerguer mas foi culturalmente violada. O estilo ensaístico  projeta uma visão poética enquanto lança uma imensa quantidade de informações,ampliando a discussão em torno desta conjuntura.A reflexão sugerida sobre o valor das coisas implica a urgência de revisão das nossas prioridades.

O ruído ensurdecedor dos caça-niqueis coloridos constrói uma realidade que sobrevive de frustração e falsas esperanças de sucesso.O navio luxuoso que aliena uma minoria dentro de um microcosmo blindado.


A película trata do abandono dos valores eternos para se deixar consumir pelo impulso de possuir bens materiais, pois são eles que passam a nos definir. Uma sociedade sustentada por ideias artificiais e facilmente digeríveis numa contexto que renega sua constituição histórica.

Um olhar sobre o continente que empalideceu diante da pós-modernidade,tornando-se a sombra de um lugar que outrora foi palco de gloriosas conquistas. Num certo momento é feita a pergunta: “Quo Vadis, Europa?” (Onde vais, Europa?)

A distorção promovida pelo dinheiro que exclui e manipula. A moeda gerando um comportamento que promove o fugaz. O ter sublimando o ser. Um universo conectado por variadas tecnologias,porém marcado por vaidade e individualismo.

    A projeção enquanto mosaico tem por objetivo fazer brotar o raciocínio sobre este determinado momento em que nos encontramos. Não pretende ser panfletário, apenas incisivo e sugestivo. Em meio ao deserto emocional que espelha nossa conjuntura, o diretor francês procura despertar o seu público para a áspera realidade evitando o maniqueísmo e simplesmente devolvendo a podridão que este sistema corrompido exala.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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