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A indignação cotidiana em Táxi Driver


É curioso constatar o quanto ficamos “acostumados” com a situação crítica em que se encontra a sociedade pós-moderna. A humanidade está perdendo seus valores mais nobres em troca de prazeres efêmeros e a grande maioria da população continua indiferente, como se nada pudesse ser feito e o melhor é aceitar as coisas como são.

Nesse contexto a indignação surge como uma impossibilidade lógica, já que todos estão suficientemente resignados para ignorar qualquer sinal de violação dos direitos humanos. A obra de arte surge então para trazer novamente esse impacto e nos despertar para a realidade.

A narrativa deste clássico da sétima arte acompanha Travis Bickle, um veterano de guerra do Vietnã que começa a trabalhar como taxista para preencher suas noites de insônia. Solitário, seus únicos confidentes são os colegas de trabalho que ele encontra numa lanchonete e mesmo assim fala muito pouco com eles.
 

A rotina marcada pelo contato diário na madrugada com traficantes, prostitutas e cafetões começa a afetá-lo. A angústia pela incapacidade de fazer algo para resolver esse problema faz com que ele tenha ainda mais problemas para dormir.

Desesperado, ele busca alguma forma de alívio emocional ao tentar iniciar um romance com uma garota que trabalha como gerente de campanha de um candidato à presidência. A constante tensão no seu emprego, trafegando pelo submundo desperta nele a urgência de tomar uma iniciativa, seja ela qual for.

A montagem refinada do cineasta Martin Scorsese (que faz uma breve participação no filme como um dos passageiros do protagonista) mostra como Travis vai sendo gradativamente atormentado por todo aquele ambiente degradante.

Sua lenta metamorfose é retratada de forma bastante fluida, permitindo ao espectador perceber todo o processo que está acontecendo com ele. A luta para encontrar qualquer forma de purificar a cidade daquela conjuntura nociva.
 

Vale comentar também como a sua revolta não é compreendida pelos outros. Quando ele tenta desabafar com um candidato e com um companheiro motorista, ambos não o levam muito a sério, pois enxergam tal fenômeno como algo pertencente à “normalidade”.

Decidido a se tornar um justiceiro, ele toma como missão salvar uma jovem de doze anos que está sendo prostituída por um cafetão que também atua como traficante. Todas as suas reflexões vão sendo cuidadosamente anotadas em um caderno, onde ele despeja todo o seu inconformismo.

O elenco traz as memoráveis performances de Robert de Niro, Jodie Foster, Cybill Shepherd, Harvey Keitel, Peter Boyle e Albert Brooks nessa história sobre encontrar sentido em meio às trevas infelizmente tão comuns em nosso cotidiano que terminam despercebidas ou negligenciadas.

Uma película sobre a importância de tomar uma atitude para contribuir com o bem estar social, ou terminaremos anestesiados enquanto somos vagarosamente digeridos por um sistema que permite tantas brutalidades.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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