Ads Top

A sombra do fascismo em A Onda


A sociedade alemã carrega consigo a mácula do nazismo até os dias atuais. A grande maioria da população sente uma imensa vergonha por esse período da história de seu país e acredita com veemência que ele não ocorrerá novamente, embora alguns poucos acreditem que o movimento mereça ser ressuscitado.

O grande problema inscrito na ideologia fascista é que ele pode ressurgir tendo como fundamentos básicos os princípios mais nobres e necessários ao espírito, como fraternidade, cooperação mútua,igualdade social e nacionalismo. Tais ideais, mesmo carregados de boas intenções, podem acabar gerando intolerância e opressão.

Baseada em fatos reais, a narrativa da seguinte película acompanha o professor Rainer Wenger, um educador carismático que tinha programado uma semana de ensino sobre anarquia no projeto de disciplinas facultativas, mas o diretor ordena que ele lecione sobre autocracia, sistema político que prega exatamente o oposto da filosofia inserida nas aulas que ele tinha preparado.


Conversando com os alunos, percebe que eles nem sequer cogitam um possível retorno do regime instaurado por Hitler e para provar um argumento o mestre sugere um exercício onde todos os matriculados naquela disciplina começam a adotar gradativamente os elementos que fortaleceram o nazismo.

A montagem do cineasta Dennis Gansel mostra como os garotos vão lentamente percebendo os benefícios dessa união em torno de um líder que tenha todas as respostas para as suas angústias e questionamentos.

Nesse ponto o diretor insere um interessante comentário sobre os valores superficiais e efêmeros que norteiam o pensamento da juventude no atual contexto. A insegurança aliada à falta de senso crítico os torna manipuláveis e previsíveis. Sua carência por orientação facilita o seu condicionamento.

A situação se agrava quando o movimento batizado de “A onda”, com seus códigos de vestimenta (camisa branca e calça jeans) e saudação específica, ganha vida própria, tornando-se excludente e opressor.
 

Vale apontar também a forma como esse experimento afeta todos aqueles que estão envolvidos no mesmo, especialmente o professor, que vai alterando aos poucos o seu comportamento dentro e fora da escola. A capitulação dos acontecimentos através dos dias da semana reflete a velocidade de concretização deste grupo.

Uma história fascinante sobre como uma brincadeira despretensiosa termina se transformando em algo potencialmente perigoso, já que o espírito comunitário desta seita transmite poder a todos que dela fazem parte, principalmente aqueles que até então viviam oprimidos e marginalizados.

Organizar em torno de um único propósito é uma faca de dois gumes, pois engrandece o espírito de um grupo enquanto cria uma atmosfera propícia ao fanatismo que por sua vez nunca gera resultados positivos. A falta de respeito pela individualidade planta o estigma que julga e isola.

Uma projeção que mostra a assustadora facilidade de absorção de um grupo social jovem e escolarizado por um a ideia abstrata que prometia inclusão e união para superar obstáculos. O resultado dessa dinâmica caminhou para o sentido oposto.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

Tecnologia do Blogger.