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O Sci-Fi noir de Godard em Alphaville



Como todo filme genial, Alphaville é um filme que não pode ser resumido em poucas palavras, por causa da variada gama de interpretações que podem ser feitas a respeito de seu riquíssimo conteúdo. Por isso é um clássico que fica ainda melhor depois que o assistimos depois da quarta ou quinta vez!!

A ficção científica de Jean-Luc Godard gira em torno do agente secreto Lemmy Caution, que disfarçado como o jornalista Ivan Johnson, chega à cidade futurista do título para buscar o professor Von Braun, há muito tempo exilado e ao mesmo tempo estudar a metrópole, controlada pelo computador Alpha 60, onde as mulheres são numeradas e funcionais enquanto as pessoas são executadas por manifestarem emoções e/ou sentimentos em público, já que a sociedade em questão foi programada para funcionar tecnicamente, “como a dos cupins e das formigas”.


O que o agente não esperava era apaixonar-se por Natacha, filha do cientista que veio resgatar e um dos responsáveis pela existência do tirânico computador. Dirigida com a excelência habitual por Jean Luc Godard, que alterna elementos do cinema noir (que incluem narração em off peculiar ao gênero e a indumentária do protagonista – chapéu e sobretudo) com poéticos jogos de luz e sombra merecem destaques especiais a câmera flâneur que acompanha os personagens com pouquíssimos cortes e a sequência em que Lemmy conversa com Natacha sobre o amor num quarto de hotel.

Com atuações excelentes e um roteiro deliciosamente intrigante, que na minha opinião chega a dialogar com 1984 de George Orwell, a película em questão nos leva a um futuro não muito distante e é importante que se faça uma releitura da nossa realidade a partir da mesma, onde as pessoas que não se adaptam a uma sociedade essencialmente funcional e técnica, que buscam uma iluminação espiritual, amorosa e filosófica diferente dos padrões de “normalidade” pregados pela grande mídia, estão sendo, de certa forma eliminadas, não por tiros de metralhadora como no filme, mas por algo bem mais cruel: indiferença.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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