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Os desafios da mente em Distúrbio Mental



A realidade, cantada por vários pensadores modernos como a versão mais ácida da vida, permanece romanticamente repudiada por uma boa parte dos artistas contemporâneos que acreditam que para se produzir arte é necessária certa dose de loucura ou, ao menos, o maior desapego possível da nossa real existência, tão dura e infértil.

Diante do caos do mundo atual, indivíduos comuns se apoderam desse pensamento de que a loucura nos salva da cotidiano cruel. Mas, é claro que essa insanidade se refere a qualquer inspiração ou comportamento consciente atípico, jocoso, que fuja dos padrões sociais ditos normais. A loucura como patologia, aquela que necessita de tratamento especializado, não possui nada de espirituoso ou romântico e pode tornar um indivíduo incapaz de viver em sociedade, tal a expiação provocada por seus sintomas.

No livro "Distúrbio Mental", de Juliana Stangue Pegoraro, editora Above, a personagem Samantha Becker é uma jovem de vinte e um anos, que vive há um bom tempo internada em um hospital psiquiátrico. Na chamada "Ala 2", a área dos pacientes menos complexos, encontram-se ela e outros jovens, todos com transtornos mentais em menor ou maior grau.

Samantha acredita ser portadora, exclusivamente, de um transtorno obsessivo compulsivo (T.O.C.). Entretanto, vai descobrindo, com o passar do tempo, que possui mais problemas do que imagina. Sua situação começa a se complicar quando passa a ver crianças presas no espelho do seu quarto e resolve entrar com elas em um mundo surreal. A moça se empolga, acreditando que esse mergulho no desconhecido pode ser uma forma de catarse e uma possibilidade de auxiliar seus amigos de modo mais profundo que o próprio tratamento. Contudo, como a mente é capaz de pregar peças, ela acaba perdendo o controle da situação.

"Ás vezes, sinto medo. Medo de que eu nunca vá sair daqui. Ou até de que eu saia, mas que eu nunca seja aceita como uma pessoa normal. Afinal, estamos aqui porque não somos normais. Somos diferentes dos outros. Talvez todos tenhamos nascido assim. Talvez fomos mandados para cá porque todos sabem que nunca nos encaixaremos lá fora do jeito que somos. Talvez? Talvez nada! Loucos. Diferentes. Indesejáveis. Somos como astronautas em órbita, sozinhos na escuridão esperando que alguém se lembre de nossa existência."

A obra é interessante e instigante. Expõe, de forma crua, a solidão dos pacientes internados que precisam prosseguir apesar da grande angústia do imprevisível, coexistindo com seus medos e nutrindo suas esperanças. Também nos faz refletir sobre os caminhos que levam ao desenvolvimento de certas doenças mentais e o quanto um passado doloroso pode nos assombrar pelo resto de nossas vidas.

O livro pode ser adquirido pelo site da editora Above.



Andreia Marques

Escritora, poetisa, ilustradora e estudante de Filosofia. Carioca, aficionada por livros, filmes e séries.

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