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Modo Aleatório | A Golden Age do Hip Hop Nacional


Que saudade do meu tempo de criança,
Quando eu ainda era pura esperança,
E Eu via minha mãe voltando pra dentro do nosso barraco,
Com a roupa de santo debaixo do braço

Desse modo, Thaide e Dj Hum falavam de uma era que viveram rodeados da cultura afro-brasileira, inundados do soul music, periferia, falavam dos seus ídolos e de seus versos, assim como suas festas e de toda a cena hip hop dos anos 70 e 80, coroados por um refrão que até hoje é um alento para os saudosistas de plantão, “Que tempo bom que não volta nunca mais”.

Essa música é emblemática para o movimento, que no final dos anos 90 ganhou um canal de comunicação dessa cultura que até então não tínhamos no Brasil. Yo! MTV , o programa de rap americano veio pra franqueada do Brasil, mas sempre com conteúdo gringo, foi quando KL Jay (Racionais MCS) e posteriormente Thaíde (Pilar do Hip-Hop paulista) assumiu a videodiscotecagem do programa.

O Yo!MTV foi responsável por divulgar grandes nomes da cena para um público maior, nomes históricos como Racionais, MV Bill, Sabotagem, Facção Central, De Menos Crime, Doctor MC, RZO, Pavilhão Nove, e muitos  outros, ganharam notoriedade fora da cena, foram apresentados ao grande público. Parecia que finalmente o rap nacional tinha alcançado seu lugar de destaque.

O álbum Sobrevivendo no Inferno, de 1998, dos Racionais MC, até hoje figura entre os principais álbuns da música brasileiro (Segundo a Revista Rolling Stones), nessa época atingiram o ápice da popularidade vendendo mais de 200 mil cópias sem nenhum tipo de publicidade em mídia, fizeram um show histórico no Video Music Awards e ainda ganharam o prêmio de Escolha da Audiência, na época era o prêmio mais comemorado da música nacional.


Daí por diante, foi mais comum o rap ser tratado como cultura, o hip hop passou a ser aceito como cultura com suas outras vertentes (Graffite e B-Boys). De fato a periferia ganhou voz, e isso não pode ser negado, e sim deve ser valorizado, pois isso é de fato o hip hop, é a manifestação do incomodo, do gueto esquecido, é o protesto por origem, é o dedo na ferida do sistema. O Rap nasceu assim e nunca deve perder seu DNA.

Já dizia Kivitz, rapper paulista: “Se o rap virar moda ele morreu”

Esse foi o fato principal para que essa geração de rappers não terem estourado a profética Golden Age (Era de Ouro) já previamente vivida nos Estados unidos. Não conseguiríamos ouvir Fação Central falando de Amor!

Para se situarem, Golden Age é o nome dado ao período de mainstream do hip hop. Vivido no USA de 1985 a 1990. Foi quando o hip-hop invadiu as rádios e programas de televisão, sua cultura foi disseminada e consequentemente alterada, adaptada, sugestionada, caracterizada para agradar os interesses comerciais e uma massa que queria o ritmo mas não queria tanto assim a verdade. É uma faca de dois gumes mesmo, a notoriedade, o dinheiro, a fama sempre será alvo de muitos, exibir um movimento é sempre bom pra cena, mas é inevitável a adaptação.

Depois de quase duas décadas de amadurecimento, longos períodos de ostracismo, muitas misturas e novas propostas do que o rap pode ser como meio de comunicação, o nosso hip-hop ressurgiu com força. Pelo menos nos últimos 4 ou 5 anos a cena vem forte e sem dúvidas a Golden Age Estourou.

Criolo fez turnê com Ivete Sangalo cantando Tim Maia, Karol Conka cantou na abertura das Olimpiadas Rio2016 e não sai dos programas globais, assim como Emicida, que junto com Vanessa Da Matta viralizou no Brasil, Projota fazendo show próprio e cantando com Anitta no Planeta Atlântida, Rael emplacando Hit atrás de Hit nas rádios mais pops do Brasil, e até o Semi-Deus da Raça Mano Brown se declarou romântico e lançou seu aclamado disco solo.

  

Nunca nosso rap teve tão popular, nunca nosso rap falou de tantos temas diversos, confesso que tem horas que isso me irrita, mas essa geração é muito boa, claro que sede ao jogo natural comercial que ainda existe, mas sabem que só chegaram ali porque a periferia comprou suas ideias.
Antes de falar com todos, eles falaram com os seus.

A geração de 90 foi fundamental para a geração atual, eles são citados  praticamente por todos em suas músicas, mas sabem que o público não é mais o mesmo e que nem dependem exclusivamente desses mega canais para sobreviverem. Estão fazendo o papal deles, estão cumprindo uma Profecia, e se no final eles conseguirem influenciar uma nova geração de interventores que continuem colocando o dedo na ferida e questionando o que é justou ou não, já vai ter valido a pena.

Porque o Hip Hop existe pra isso, para incomodar, para questionar e não para ter fãs!


Filipe Nascimento

Uma mente moderna, porém mal acabada. Paulista, urbano, viajante, sempre embalado por uma trilha sonora que transita entre o rock e o hip hop, entre as referências e as novidades.

|@Filipedonasc

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