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O olhar por trás das ilustrações do paulistano CrisVector



Cristiano Siqueira, também conhecido pela identidade artística de CrisVector, é um ilustrador paulistano de formação técnica e autodidata. Após alguns anos trabalhando como designer e diretor de arte para embalagens, livros, revistas e capas de álbuns musicais, Cristiano migrou para a área de ilustração e já atua a quase 12 anos como ilustrador freelancer, atendendo clientes como Nike, ESPN, Pepsi, Blizzard, Bayer, UFC, Riot Games, Under Armour, entre outros.

Batemos um papo com o ilustrador sobre inspiração, trabalhos marcantes, referências, desafios, entre outras coisas. Confira:

Trabalhar com grandes marcas geralmente é algo bem complicado devido algumas restrições do brandbook, e muitas pessoas que trabalham com publicidade, ilustração ou nesse meio artístico, sonham em trabalhar com alguns dos clientes que você teve oportunidade, como Nike, Rolling Stone e ESPN. Qual foi sua maior dificuldades de trabalhar com esses grandes clientes?
Acho que minha maior dificuldade foi me organizar pra poder cumprir os prazos de forma tranquila e aprender a se preocupar apenas com meu trabalho. Ao contrário do que muitos pensam (e que eu também pensava), as restrições de brandbook (como você mencionou na pergunta) não são exatamente uma preocupação do ilustrador. Geralmente os diretores de arte já desenvolvem os projetos levando em conta um determinado estilo de ilustração que se encaixe na linha de trabalho de arte que estão desenvolvendo. Apresentam trabalhos de alguns ilustradores na aprovação do projeto e já chegam no ilustrador com muita coisa definida. Desta forma eles conseguem extrair o máximo de criatividade que o ilustrador pode oferecer. Claro que existem projetos em que o ilustrador tem uma restrição criativa maior, mas no meu caso fui procurado justamente para expandir um conceito criativo em desenvolvimento que apontava para o meu trabalho. Mesmo com todo esse filtro, existe a parte do desenvolvimento do trabalho, que pode sofrer alterações e ajustes e foi aí que encontrei alguma dificuldade quando as alterações se tornaram um pouco excessivas. Existe um prazo pro trabalho terminar e quanto mais ajustes, menor o tempo para se finalizar o trabalho a tempo. Felizmente, sempre cumpri os prazos, mas algumas vezes tive que me esforçar mais. Também tive que aprender a me concentrar mais no meu trabalho e não me envolver tanto com a direção de arte do projeto todo. É normal trabalhar em parceria com a direção de arte, mas é preciso que cada um desenvolva bem o seu papel. É como um jogo coletivo, é preciso aprender a balancear o esforço e não tentar fazer tudo sozinho, pois quando a “bola” estiver com você, é preciso estar apto a dar o seu melhor.

Você já trabalhou com publicidade, editorial, web site, etc... Qual mercado você acha que é o mais aceito para ilustradores?
Com certeza é o editorial. Existe uma tradição e uma maior diversidade no uso da ilustração. Desde material didático, passando por revistas e jornais até capas de livro. A variedade de estilos aceitos também é grande, o que faz com que seja mais fácil pra um ilustrador encontrar trabalho. Com a expansão do conteúdo editorial pra web, abriu-se um novo mercado para ilustradores que também trabalham com pequenas animações, gifs ou infográficos animados. As oportunidades se ampliaram. O mercado editorial também oferece uma liberdade criativa maior, eu acho. O que ajuda quando um ilustrador tem um estilo mais restrito.

  
Durante muito tempo, você desenvolveu trabalhos incríveis com muitas marcas, e também alguns projetos pessoais. Qual o trabalho que você mais se orgulha ou tem algum carinho especial?
Tem diversos trabalhos que eu me orgulho, mas um que posso citar são os posters criados para a Copa do Mundo de Futebol no Brasil em 2014, por encomenda da ESPN dos Estados Unidos. As razões de ter orgulho deste trabalho são várias. Primeiro por ter sido escolhido, entre tantos artistas brasileiros, a criar posters ilustrados para cada time na Copa do Mundo. A ESPN sempre convida artistas do país sede do evento para desenvolver os posters, foi assim na Copa do Mundo da África do Sul e foi assim com a EuroCopa na França. Para o Brasil tive a honra de ter sido o ilustrador convidado. Outro motivo de orgulho foi uma superação pessoal diante de um volume de trabalho monstruoso. Foram 3 meses de trabalho intenso, em duplas jornadas, pra desenvolver sozinho cerca de 33 posters mais outras ilustrações para momentos chave da Copa (primeira fase, semi final e final). Vencendo a desconfiança do cliente, problemas na criação e o próprio cansaço. Depois da entrega do trabalho, outro motivo de orgulho foi ver que os posters tiveram uma repercussão positiva tão grande e tão espontânea que superou todas as expectativas. Os próprios jogadores retratados trocaram suas fotos de perfil em redes sociais para as ilustrações dos posters. Os trabalhos foram publicados em diversos blogs e jornais do mundo todo, inclusive concorrentes da ESPN. Nem o próprio cliente imaginaria uma repercussão dessa. Alguns torcedores imprimiram posters e levaram aos estádios, pude ver alguns deles pela TV. Foi um trabalho memorável e um divisor de águas pra minha carreira. 

"Eu acredito que uma boa ilustração deve comunicar bem. Minha grande preocupação, em qualquer projeto, é saber “conversar” através da ilustração".


Quais são suas "preocupações" quando você está criando uma ilustração ou algum trabalho especifico para a marca? Que características você considera que uma boa ilustração deve ter?
Eu acredito que uma boa ilustração deve comunicar bem. Minha grande preocupação, em qualquer projeto, é saber “conversar” através da ilustração, ou seja, trabalhar uma linguagem, formas, símbolos e cores que sejam compreensíveis e apreciáveis para o público a qual se destina o trabalho. A ilustração é uma linguagem bem maleável e talvez por isso seja também sensível a ruídos de comunicação. Um trabalho pode gerar uma percepção totalmente diferente da intenção inicial, então é importante estudar e aprender mais sobre quem vai ler, apreciar, consumir, a imagem e trabalhar elementos que sejam possíveis de serem compreendidos. Ou pelo menos que a ilustração seja capaz de dar pistas sobre o que ela esteja tentando comunicar.

Olhando alguns dos seus trabalhos recentes, consigo ver que seu estilo é muito forte, e fácil de bater o olho e saber de cara que foi Cristiano Siqueira que fez esse trabalho.
Como foi (ou está sendo) sua busca para achar o seu estilo?

Foi um aprendizado. Costumo dizer que quando parei de tentar encontrar meu estilo, ele que me encontrou. Parece ser uma coisa meio “correr atrás do próprio rabo”, mas hoje percebo que foi assim mesmo. Quando eu era estudante de artes, eu queria ser um artista de quadrinhos. Comprava diversas revistas com trabalhos dos meus ilustradores favoritos e ficava tentando copiar. Desenhando incessantemente até aprender aquele estilo. Depois passei a estudar grandes mestres da arte, também nesse método de estudo / cópia. Mas até então eu só tinha um sonho de trabalhar com ilustração ou arte, não via que isso realmente poderia acontecer. Após um tempo, quando me vi trabalhando com ilustração, eu olhava meu trabalho e não conseguia identificar um estilo. Eu estava apenas resolvendo os problemas dos clientes, aplicando toda a técnica que tinha aprendido, mas sem nenhum toque pessoal. É claro que uma ilustração sempre vai ter alguma característica própria do ilustrador que a fez, afinal é um trabalho feito por uma mente humana (mesmo com todo o aparato tecnológico), mas ainda assim, chamar de “estilo pessoal” ainda era muito raso, na minha opinião. Passei a experimentar diversos estilos de ilustração, aplicando diferentes técnicas, criando trabalhos pessoais tentando “criar um estilo”, mas nada que olhasse e me reconhecesse ali. Eu estava aprendendo a criar um estilo e não buscando a maneira mais confortável de me comunicar através do meu trabalho. Foi quando fui arrumar uma pasta de desenhos antigos e, ao ver aqueles trabalhos depois de tanto tempo, fui tomado por um sentimento nostálgico de quando era divertido desenhar, uma certa familiaridade, como encontrar um amigo de infância depois de anos e retomar um assunto como se o tempo não tivesse passado. Na época que esses desenhos foram feitos, eu os considerava uma cópia barata, mas depois, analisando com olhos mais experientes, eu identifiquei um ponto de desenvolvimento ali e achei que seria interessante retomar, apenas para me divertir de novo, mas aplicando mais conhecimentos que fui adquirindo com o tempo. Acabei me sentindo bem confortável trabalhando neste estilo e passei a ter confiança nele, criando alguns trabalhos pessoais e também trabalhos para clientes (principalmente editoriais). Ainda assim eu só fui considerar isso como “estilo” quando me disseram que meu trabalho tinha um estilo próprio e quando eu fui organizar uma versão do meu site e percebi que tinha muitos trabalhos feitos daquela maneira. É complicado se olhar no espelho e se reconhecer :)


Seu trabalho é muito rico em referências, cores e traços muito marcantes, isso faz com que seu trabalho se torne único e especial. Hoje, quais as suas maiores referências e inspirações?
Minhas maiores referências são as artes de quadrinhos e posters antigos. As paletas de cores limitadas, as soluções gráficas mais diretas e icônicas, os trabalhos que comunicam com força, simplicidade e beleza. Desde sempre isso me atraiu e continua me atraindo. Tenho um carinho especial pelas artes de posters antigos, franceses e soviéticos. De como os artistas achavam soluções simples e fortes dentro de uma limitação técnica de impressão das gravuras. Geralmente com 2 ou 3 cores. Os trabalhos que mais gosto e aprecio tem esses elementos. Apesar dos detalhes, a estrutura dos meus próprios trabalhos também segue essa linha, algo que tento sempre aprimorar.

"Aprendi que todo cliente, invariavelmente, quer que você desenvolva seu trabalho no menor tempo possível, mesmo que isso sacrifique um pouco a qualidade".

  
Durante a carreira surge diversos desafios, como prazos realmente curtos, clientes complicados de trabalhar, etc… Qual foi o seu maior desafio na carreira de ilustrador?
Acho que aprender a trabalhar sob pressão. Aprendi que todo cliente, invariavelmente, quer que você desenvolva seu trabalho no menor tempo possível, mesmo que isso sacrifique um pouco a qualidade. Isso é algo difícil de admitir, mas no fundo o cliente até aceita uma queda de qualidade se isso for necessário para que o trabalho seja feito dentro de um prazo curto. Existe uma pressão em cascata, vem do cliente final, que pressiona a direção de arte, que por sua vez pressiona o ilustrador. Cada um com seus motivos, buscando viabilizar o projeto dentro das limitações. Aprendi que não se deve sacrificar a qualidade do seu trabalho por conta de um prazo impossível, que é necessário se organizar, ser honesto consigo e com o cliente, entender e saber absorver e trabalhar com as pressões e fazer o seu melhor. No final de tudo, se tudo der certo, o que fica é o trabalho feito, publicado, independentemente se foi feito em 1 ou 10 dias. Ser honesto é também admitir quando se não tem condições de se cumprir um prazo. Não é saudável se sacrificar além dos próprios limites.

Um dos pavores dos publicitários, ilustradores e todos que trabalham com o meio artístico e criativo, é o famoso bloqueio criativo. O que você costuma fazer para “destravar”?
Geralmente, dentro da ilustração, é muito difícil ter esse tipo de bloqueio porque os trabalhos tem certos objetivos a serem atingidos que já vem da direção de arte e do cliente. Por exemplo, o público pra qual o trabalho vai ser feito, os elementos que a ilustração precisa retratar, o sentimento que querem evocar (agressividade, prazer, sensualidade, emoção, melancolia...etc) Assim sendo, o ilustrador tem um ponto de partida pra poder pesquisar e ir formando suas ideias. Pode acontecer do trabalho não fluir com abundância, então pesquisas direcionadas a todos esses “objetivos” da ilustração, são sempre bem vindos. Ao pesquisar sobre o público, por exemplo, sempre nos deparamos com alguma iconografia relacionada a esse público, símbolos que são de fácil entendimento e que potencialmente podem ser trabalhados na ilustração. É como você tentar iniciar uma conversa com quem você não conhece bem, é mais fácil quando você sabe de algo que a pessoa já conhece e você pode desenvolver a conversa a partir deste assunto. 


Que dicas você pode dar para quem quer começar na carreira de ilustrador, e não sabe por onde começar? Se faz alguma faculdade ou algum curso especializado na área.
Faculdade não é necessária pra se trabalhar com ilustração, de fato. Mas é importante estudar (seja faculdade ou por si próprio) para que se amplie horizontes e que seja possível um nível maior de compreensão de linguagem e comunicação humanas. Às vezes os ilustradores em início de carreira estão mais preocupados se devem investir tempo no aprendizado de algum tipo de software ou juntar dinheiro pra comprar algum aparato tecnológico. Eu posso dizer que não é o mais importante. Ilustradores geniais trabalham apenas com lápis e papel. A tecnologia facilita mas é apenas uma ferramenta. Meu conselho é investir mais tempo em enriquecer sua cultura e aprender a “conversar” através do seu próprio trabalho. Outra dica é conhecer a área pra qual se pretende trabalhar. Muitos ilustradores ficam meio perdidos sobre onde começar a oferecer seu trabalho e perdem muito tempo e energia tentando trabalhar pra uma área que eles não são os mais indicados. Cada área (publicidade, editorial, embalagens, design gráfico) tem necessidades próprias, então vale a pena conhecer mais sobre cada área, preferivelmente conversar com profissionais destas áreas e entender de que forma seu trabalho de ilustração pode ser útil. Nem sempre os primeiros trabalhos são aqueles mais bem pagos ou divulgados, mas esses trabalhos são importantes pra se começar a formar uma boa rede de confiança.



Vinicius Kazuo

Nascido em São Paulo e criado no mundo. Já viajou para Buenos Aires, Uruguai, Califórnia e alguns estados do Brasil. Trabalha com publicidade onde descobriu seu amor por arte.

|@ViniKazuoO

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