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A luta por direitos universais em Fome


A conquista dos direitos universais do homem projeta a necessidade de realçar os valores que nos definem. A defesa de tais princípios implica na preservação de tudo o que nos confere certa dignidade.

Algumas prisões optam por uma conduta que transgride qualquer norma de respeitabilidade com os cativos, reduzindo os mesmos à condição de animais encarcerados. Todos recebem o mesmo tratamento, independente da pena a que foram submetidos, nivelando-os a um só patamar.

Ambientada na Irlanda do Norte de 1981 e baseada em fatos reais, a narrativa acompanha um grupo de presos militantes do grupo separatista IRA que anseiam pelo status político que os colocará em uma situação diferenciada daqueles que cometeram crimes hediondos.
 

A constante recusa das autoridades faz com que eles iniciem uma série de protestos na cadeia sujando as paredes de suas celas com dejetos, além de se recusarem a cortar o cabelo e fazer a barba.

Cabe aos carcereiros lavar a força os detentos para depois espancá-los com bastões de borracha. A situação insustentável faz com que os prisioneiros comecem a pensar em alternativas drásticas para conseguir o que precisam.

A montagem do cineasta Steve McQueen (nenhuma relação com o ator americano) utiliza praticamente nenhuma trilha sonora e poucos diálogos na primeira metade do filme, que é mais centrada no chefe dos carcereiros que deixa qualquer traço de compaixão quando entra no presídio.

A outra parte da projeção se concentra em Bobby Sands, que organiza com seus companheiros uma greve de fome até que suas reivindicações sejam atendidas. A cena onde ele informa ao padre suas intenções merece destaque porque ela é marcada por um take único de 20 minutos de intensa conversa.
 

Profundamente gráfico e visceral, o diretor preza pelo silêncio para reforçar os sons que ecoam naquele ambiente marcado por latejante agonia e dor. Um ensaio sobre a degradação física que projeta a injustiça.
O diretor condensa grande parte do filme no interior do recinto, “enclausurando” o espectador dentro daquela atmosfera insalubre para ilustrar a necessidade de obter o mínimo de respeito que lhes é garantido por lei.

Nesta película, a fome deve ser vista não apenas como uma necessidade física do organismo, mas um desejo de conseguir a devida legitimação de seus perfis, realçando a opressão do colonialismo britânico naquela região.

A determinação para conquistar seus ideais suprime qualquer urgência fisiológica enquanto se transforma em reflexo de uma conjuntura que precisa ser combatida.

O manifesto silencioso que sensibiliza através do sacrifício em prol de um ideal, utilizando o sofrimento humano como bandeira de protesto contra o abuso de poder que sufoca o espírito livre. A crença na realização de um bem maior, mesmo que ele custe suas próprias limitações.


Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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