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O arcabouço poético do circo em Os palhaços


O circo transporta em sua essência todo o arcabouço poético que ilumina e transcende o espírito de todos aqueles dispostos a se permitirem absorver pela atmosfera.

A realidade insólita deste universo dialoga com nosso imaginário, inspirando nossos pensamentos enquanto somos seduzidos por este local onde tudo é possível, carregado de tamanha inocência que projeta a visão oposta da sociedade ao seu redor, tragada pelo funcional e destituída de originalidade.

O documentário do cineasta italiano Federico Fellini busca resgatar toda esta simbologia, utilizando o palhaço como ícone de um tempo lírico soterrado pela pós-modernidade concebida pelo princípio do instantâneo e alimentada pela praticidade.

Tema recorrente em toda sua filmografia, o circo projeta uma dimensão que convida o espectador a navegar nos sonhos e memórias de uma época onde o coração era mais puro e a vida mais doce, longe das perturbações reservadas para a maioridade.


O passeio pelas ruínas desta época perdida é feito de forma metalinguística, revelando todo o processo de criação da película e permitindo uma maior liberdade com a montagem das cenas, mostrando apresentações grandiosas no passado de variações do palhaço Augusto (transgressor irreverente, desajeitado e brincalhão, espelho da liberdade do instinto).

O filme faz uma belíssima homenagem a todos os mestres desta arte. Uma carreira dedicada a elevar o espírito humano que exige um enorme sacrifício emocional e constante prática.

O diretor entrevista os grandes intérpretes do passado, alternando seus depoimentos com imagens das performances que os tornaram tão notáveis. O contraste do passado iluminado e idílico com o presente impessoal é feito de maneira brilhante por Fellini, que comenta com carinho como este universo transformou a sua perspectiva da realidade. Suas lembranças de infância retratam não somente os palhaços do circo, mas curiosos personagens de seu cotidiano que tinham a mesma habilidade de entreter todos ao seu redor com seus maneirismos.


O cineasta também mostra como a essência do espetáculo está presente de forma visceral naqueles que viviam neste ambiente, embriagados pelos aplausos da plateia emocionada. Destaque para o depoimento do palhaço aposentado que não gosta de falar no assunto porque a saudade o consome.

O atual contexto perdeu o encanto presente nos detalhes. O prazer pelo óbvio descartou a sedução do mistério. A ilusão que emanava da lona do picadeiro não sobreviveu à sua elitização.

Hoje o circo tradicional tornou-se uma vaga lembrança que ocasionalmente cativa o coração dos velhos sonhadores perdidos em esperanças de dias melhores. Símbolo de um momento ímpar onde foi possível concretizar o imaginário eternizando o encanto do instante.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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