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Abre Aspas | Me passa um Rivotril 0,25mg, por favor



A sociedade  pós-moderna se especializou em criar indivíduos doentes, e nós - os próprios -  dificilmente nos surpreendemos ao ouvir tal afirmação. Rivotril, Prozac, Luvox, Xanax, Espran. Algum desses parece familiar? Alguns?  Ao menos para mim, para os quatro milhões de brasileiros diagnosticados com TOC e para os onze milhões depressivos, o são. Todos eles.

São remédios para tratar essas desordens, além da Ansiedade e que fazem parte do nosso dia a dia de forma quase natural. Isso dificilmente pode ser interpretado como algo além de uma forte indicação do adoecimento coletivo que vivenciamos.  Estamos vivendo mais e pior.

Se por um lado o desenvolvimento de fármacos para atender a essas necessidades emergentes é nada menos que necessário, por outro vale contestar o que nos causa tanta ansiedade, o que nos deprime e o que nos torna obsessivos-compulsivos.

Meu palpite é que ter a preocupação de atender a certos padrões desde a infância e pré-adolescência pode ser um dos responsáveis. Desde os onze anos escutamos que determinadas atitudes são coisa de pobre, puta, viado e vagabundo. 

POBRE - Na época do colégio, todos vestiam religiosamente o tênis da Adidas e a camisa da Abercrombie & Fitch, além de claro, procurar a etiqueta dos tão ostentados bonés da NBA, só para se certificar de que não eram falsificados. Com onze anos eu obviamente não tinha ideia do que era fetichismo da mercadoria, tampouco tinham aqueles que fiscalizavam os bonés alheios, mas a sociedade que nos formou e formatou tinha. Cada menino com tênis da Kappa pode creditar seu constrangimento ao ir para a escola com eles, aos primeiros fetichistas, que perceberam o quanto isso era lucrativo. Isso adoece, isso deprime. 

PUTA - Mesmo que ao crescer fiquem mais evidentes as contradições entre rechaçar a pobreza e sustentar um discurso meritocrático, temos um outro fator que parece se estender para além da juventude: Fiscalizar o comportamento feminino. Já ouvi amigos falando sobre como só estavam com quem estavam, “porque ela dava”, “até arranjar alguém melhor” (que também “desse”, obviamente) na época achei graça, assim como todos na rodinha de amigos e a cereja do bolo foi passar pela fulana com uma risadinha de canto de boca no dia seguinte. Por mais que eu não acredite na figura folclórica do homem feminista, hoje, com um pouco mais de consciência, me pergunto o porquê de tanta babaquice. Eu tinha 13 ou 14 anos, não foi a tanto tempo atrás e parte da explicação é que nós eramos babacas, oras! Mas não devemos parar por aí.

Tive educadores que, muito pacientemente, me elucidaram o quão problemático era esse comportamento. Desfizeram a besteira (Escola Sem Partido uma ova), mas quem fez a besteira primeiramente? O machismo deu forma às religiões em sua maior parte, deu forma ao Estado e às relações de trabalho e hoje essas instituições regulam o comportamento socialmente aceito ou desejável. Somos criados ouvindo besteiras de todos os tipos, desde nossos avós e tios religiosos dizendo que a mulher deve ser semelhante a Virgem Maria até a revista Veja ovacionando Marcela Temer por ser “bela, recatada e do lar”. Longe de nos isentar, enquanto indivíduos, de culpa, esses discursos nos incentivam a pegar nos nossos pintos e coloca-los em cima da mesa mais próxima e vocês que escondam suas bocetas. Daí surge o sentimento que legitima  a risadinha de canto de boca e que a fulana, ela da pra qualquer um, maldita. Isso adoece, isso mata. 

VIADO - A homofobia, principalmente na sociedade brasileira começa cedo, “bixa” e “viado” são dos piores xingamentos que um pirralho ouve de seus colegas. Nesse campo tenho uma boa dose de experiência pessoal, por nunca ter sido muito do tipo esportista ou “pegador” - na época ainda não tinha dominado a arte da babaquice - e me deparava constantemente com questionamentos da minha orientação sexual, geralmente em tom de chacota. Por ter outros amigos e por uma fase de supercompensação desse estigma, pararam de me encher a paciência. Nem todos tem essa sorte. Apesar disso foi alguns anos depois, ao perceber que eu não tinha problema algum com a associação da minha imagem com a homossexualidade e que a homossexualidade em si não era algo negativo, que eu de fato deixei de lado as provocações, deixei acharem o que quisessem.

Para além de crianças sendo estúpidas, a homofobia tem inúmeras consequências mais sérias, uma agressão com uma lâmpada no rosto em plena Avenida Paulista, viver em situação de rua após ser expulso de casa, ouvir que só não encontrou a pessoa certa do sexo oposto, são apenas alguns exemplos diários destas. Isso mata, incapacita e deprime. 

VAGABUNDO - A mudança de postura entre a risada com que se recebia o projeto de ser astronauta quando nos perguntavam "O que você vai ser quando crescer?" e os olhares preocupados e desaprovadores perguntando "Tem certeza que vai fazer História? Não dá dinheiro" foi da água para o vinho; lidar com essa mudança, com a pressão de ouvir que o assunto "X" ou "Y" cairá no vestibular ou que só serve fazer UNICAMP, USP ou Federal - numa base diária - não faz bem ao psicológico de ninguém, em suma, o que se diz ao reproduzir esses lugares comuns é: siga seus sonhos, desde que eles se encaixem perfeitamente no modelo de produção capitalista. Isso adoece, isso gera mediocridade.

A ideia é que, não adianta culpar o jogo "Baleia Azul", "13 Reasons Why", a internet, as redes sociais ou qualquer outro bode expiatório pelo adoecimento de nossa sociedade e pelas alarmantes e crescentes taxas de suicídio. A culpa é nossa, de cada um que diz que fulana é mulher pra pegar não pra casar porque o namorado sacana compartilhou as fotos íntimas que ela lhe confiou, de cada um que olha rindo pra colega porque disseram que ela é fácil, de todas as vezes que usamos ofensas homofóbicas ou dizemos que tudo bem ser gay ou lésbica desde que não sejam nossos filhos, de cada página nas redes sociais que falam sobre "pobre fazendo pobrice" (porque afinal de contas, se você não tem grana você não tem nada) e de cada colega ou conhecido que passou a vida inteira num cubículo e não consegue enxergar o quanto é medíocre vir exaltar os mesmo ideais que o colocaram lá. O resumo da ópera é que talvez se todos parássemos de tentar impor a lógica do: Nascer, estudar, ser conformista, trabalhar, reproduzir e morrer. Nós seríamos mais saudáveis enquanto sociedade. Melhoremos.
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