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Abre Aspas | O guia definitivo para o aspirante a tatuado


Antes de mais nada, prazer. Não, não estou falando de colocar o prazer no topo da sua lista de prioridades, estou me dando a deixa para me apresentar. Este que vos fala é o mais novo colunista desta revista (por isso a carinha nova na descrição do autor).

A curiosidade que cruzou sua mente por exatos dois segundos, perguntando-se: sobre que porra ele vai falar? Eu sano, dizendo que sobre tudo, desde histórias com pouquíssimo pé ou cabeça – esta segunda menos ainda – até textos como este, que buscam ajudá-lo a economizar seu pacote de dados da internet (que nós dois sabemos que é de 30 megas e olhe lá), reunindo várias informações úteis em um lugar só. De nada.

Apresentações feitas e um, dois ou três beijinhos de cumprimento, dependendo de onde você vem, vamos ao que o fez clicar neste link: passou pela sua cabeça dar o desgosto para a sua avó, “que não merecia isso, meu filho”, de fazer uma tatuagem.

A minha (até hoje) solta aquele suspiro de decepção quando eu faço mais uma, o que nos leva ao primeiro item desta lista:

Quem tem tatuagem vai sofrer preconceito

Infelizmente, por tatuagem, até pouco tempo atrás, ter sido associada com marginalidade, os tatuados vivenciam o que restou disso. O que significa que você muito provavelmente vai ter que lidar com uma eventual cutucada sobre o tema.

Desde alguns almoços em família desconfortáveis (quando é que não são?), até uma eventual oportunidade de trabalho perdida.

Por mais que esse preconceito hoje em dia seja mais discreto, e tenha diminuído, esta é uma realidade que não dá para ignorar, e portanto o preço para se ter uma tatuagem (além dos vários reais que serão pagos nela) é este.


Preço

Falando em preço, este é outro tópico importante, já que tatuagens boas, de modo geral, são caras. Eu sei que este é um clichê deste tipo de guia, mas isto não só tem a ver com respeito a arte e aos custos de trabalho do seu tatuador, mas também com a lei da oferta e da demanda: se você quer sua tatuagem feita pelo artista mais requisitado e conhecido na cidade, vai custar caro.

Uma regra da vida também se aplica aqui: fuja dos picaretas! Mesmo que você não vá bancar o tatuador badalado, não jogue pro alto e faça com um qualquer, não! (este segundo não = eu moro na Bahia há dois anos e já sou 100% baiano, mesmo que digam o contrário!). Se o profissional escolhido acabar não passando a confiança ou a profissionalidade esperada, caia fora! Não se deixe levar pela empolgação, opte por alguém que respeite o cliente, faça um bom trabalho e respeite as condições sob as quais este trabalho tem que ser feito (principalmente em relação à higiene).

Isso tudo não quer dizer que você deva esnobar aquele seu amigo que está começando a tatuar e quer você de cobaia, mas o faça consciente de que provavelmente o trabalho terá mais personalidade do que qualidade técnica e você vai ter que viver com isso para sempre.

Não tenha medo de ser chato

Nem sempre seu tatuador ou tatuadora vão ser as pessoas mais pacientes do mundo. Tente entender que eles ouvem os mesmos clichês todos os dias e provavelmente perderam um pouco da habilidade de esconder a impaciência diante destes, em algum momento perto do septuagésimo quarto “mas vai doer?”.

Esse é o momento que você dá uma de João sem braço, e faz todas as perguntas e comentários que lhe vierem à cabeça sobre sua tatuagem, mesmo que seja “vai doer?” ou algo do gênero. Finja que você não é capaz de perceber a agonia do coitado do tatuador. Esse é um passo importante, já que, para deixar alguém riscá-lo, a confiança no artista é essencial.

Dor e higiene

Respondendo à pergunta do tópico anterior - aquela que todos que se metem pelo mundo da tatuagem ouvem mais do que “bom dia”: Sim, vai doer.  Tatuar-se nada mais é do que enfiar várias agulhas pequenas repetidamente pela sua pele, com tinta. Alguma parte desse processo parece indolor? Pois não é e se alguém lhe disser que “é uma dorziha boa”, pode ter certeza que é só pose, ou masoquismo (tem quem goste).

De qualquer forma, esteja avisado que as únicas partes boas de se tatuar são o depois e a conversa durante a tatuagem, que vai acontecer em meio aos seus grunhidos.

Por falar em várias agulhas, você vai querer se certificar de que tanto o tubinho pelo qual a tinta passa, quanto as agulhas utilizadas, sejam descartáveis e novas, já que tatuagem envolve sangue, o que te deixa sujeito a problemas sérios de saúde se ela não for feita sob estas condições. Sem mencionar que esse, além da presença de outros equipamentos, como luvas descartáveis e, em alguns lugares como Brasília, o EPI completo, é um forte indicativo da profissionalidade do estúdio (ou da falta dela).

Os cuidados depois de se tatuar

Tatuar-se não se resume a se deitar em uma maca por algumas horas, enquanto um camarada o risca com uma máquina. Uma boa tatuagem é composta pela soma de um bom artista e dos cuidados corretos, então cuide dessa meleca, porque você pagou caro. Para isso:

  • Use plástico filme e pomada cicatrizante imediatamente após fazer a tatuagem e pelas próximas três noites (até porque tatuagens novas soltam tinta e, acreditem quando eu digo, que é uma dor de cabeça para tirar a dita cuja do lençol).

  • Depois desses três dias é legal continuar usando um pouco de pomada cicatrizante todos os dias, até a tatuagem parar de descascar. Uma boa pomada é Bepantol Derma (Bepantol me patrocine aí), mas alguns estudios vendem uma pomada específica para isto.

  • NÃO DESCASCAR: Este tópico não está em negrito, letra maiúscula, itálica e sublinhada à toa. O processo de cicatrização de uma tatuagem tem um período chato em que ela coça e descasca, mas é importante que você use todo o seu autocontrole Jedi para não cair na tentação de cravar as unhas na sua tatu novinha. Pense que se tatuar é enfiar tinta em uma camada de pele que não se renova com tanta frequência e que o que tem em cima dessa camada de tinta precisa cicatrizar direito para que ela fique lá bonitinha. É isso que está acontecendo quando ela descasca e coçar pode deixar a tatuagem cheia de falhas. 
Adendo: cuidado com esponjas e toalhas. Passar a toalha na tatuagem depois do banho sem cuidado, ou lavá-la com esponja, pode acabar tirando a casquinha.

  • Não submergir: esta orientação é bem simples, nada de mar ou piscina por duas semanas. Além da água amolecer a casquinha que se forma, esses ambientes (principalmente a piscina) geralmente não são dos mais limpos e, ainda por cima, o cloro da piscina também pode despigmentar a tatuagem.

  • Protetor solar: sempre passe protetor solar na sua tatuagem, para evitar que ela perca a pigmentação. Parece óbvio, não? Na verdade, esta é uma recomendação pós-cicatrização; antes disso, o protetor não é a coisa mais recomendada do mundo, afinal de contas a tatuagem é um machucado na sua pele e o protetor solar não foi feito para isso.

  • Não expor demasiadamente ao sol: sabe aquela história de que se você engordar demais ou envelhecer as tatuagens vão ficar pelancudas e feias? A real é que se isso acontecer você também fica, sendo a exceção para essa regra o sol. Você pode estar bonitão(ona), malhado(a) e com os dentes escovados, mas uma tatuagem exposta demais ao sol desbota e vai estragar a ideia de um desenho bonito, portanto esse é um cuidado que você sempre deve ter.

De modo geral: trate a bonitona como um pequeno corte e evite rolar na lama, que tudo vai dar certo.

A regatinha

Com tudo isso em mente e depois de cicatrizada a tatuagem, só resta curtir. Vale passar no espelho se olhando, comprar uma camisa regata, ser o primeiro a tirar a camisa - regata - no churrasco, falar como se fosse especialista (depois de fazer uma estrelinha atrás da orelha) e fazer cara de desdém dizendo que não doeu. Aproveite e já comece a juntar dinheiro para a próxima.

Guilherme Lucena

"Major Tom to ground control".

|@lucena_guilherme

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