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Conexão 360º | Você guarda o souvenir da viagem que não fez?


A identificação do homem com a origem do produto cultural transcende a relação comercial e provoca o resgate das memórias afetivas vinculadas ao local de suas raízes.  A conexão do sabor da geleia de pimenta abrindo apetite de turistas na orla de São Luís do Maranhão, o casal em núpcias saboreando pisco chileno aos pés de Vale Nevado ou mesmo o cuscuz quentinho numa manhã preguiçosa de domingo derretendo a manteiga vagarosamente sobre a farta mesa nalguma esquina de São Paulo, resgatam lembranças armazenadas em cada um de nós que estão à espreita para serem acionadas.

Ainda assim, se você não reconhece os cheiros e as imagens de uma região ou sons inequívocos de determinado local, saiba que a experiência não fica comprometida. Ela ainda assim será única dentro do seu contexto, pois os produtos culturais carregam nossos sentidos para experiências intangíveis que o corpo seria incapaz de transpor pela existência dos limites da matéria.

"Nenhum povo pode viver sem a inspiração mítica de si próprio", grifei com meu marcador amarelo na obra 'O mito de Portugal nas suas raízes culturais' do Manuel Cândido Pimentel quando ainda estudava os produtos culturais para pesquisa acadêmica da faculdade há quase 10 anos atrás. Hoje, revisitando meus grifos textuais, deparo-me com este pensamento que traduz exatamente tudo aquilo que irei te apresentar.

A força que existe na identificação geográfica dos produtos culturais, evocando tradições, hábitos e valores ancestrais devem ser utilizados como vantagem e diferencial no mercado audiovisual. Uma banda de rock psicodélico que surgiu no meio do deserto do Saara está viajando o mundo e conquistando festivais de música com sua sonoridade étnica e sua identidade única. É uma verdadeira experiência ouvir, ver e sentir na pele o ressoar das guitarras, dos tambores e da areia vermelha que carrega a Tinariwen.

Em meio a conflitos religiosos e um território marcado pela beleza impiedosa do Saara, surge um som hipnotizante de guitarras abençoadas por músicos de uma tribo nômade que vem ganhando o respeito do mundo ao fazer um som autêntico, com singularidade que nenhum outro projeto conseguiria expressar o que representa a sua realidade.


Saindo da África e partindo rumo à Ásia, você vai descobrir que a indústria cinematográfica fora de Hollywood tem números tão impressionantes que deixam a hegemonia americana no chinelo. Mas a maior produção de filmes do mundo, em volume de películas, concentra-se mesmo na Jamaica, seguido da Índia - dizia aquela inconfundível voz do José Wilker numa prosa comigo por longos minutos ao telefone esmiuçando em detalhes a minha curiosidade acadêmica. "O cinema é o futebol das tardes de domingo na cidade Mumbai", completava.


Em 2009, vivi por 2 semanas uma imersão na produção de um blockbuster da indústria de Bollywood. Enthiran era o filme que estava sendo fabricado no meio dos Lençóis Maranhenses, e eu me via rodeado por dias com cineastas, produtores e artistas indianos no meio daquela maravilha da natureza. Tive o privilégio de viver nestes dias um verdadeiro mergulho na fabricação de um produto cultural que mesmo tão longe de seu país de origem, manteve aqui, toda a sua essência.


Se o filme foi lançado no Brasil? Não havia interesse comercial. O filme havia sido pensado, produzido e filmado para o mercado interno indiano, preservando seus números de musicais, megalomaníacas cenas de ação e o romance ingênuo tão tradicional em suas obras. Essas são características denotadamente da origem do filme e das preferências do mercado local. O fascínio do povo indiano pelo produto cultural que a indústria criativa de seu país proporciona gera valores que passam gerações e deixam filmes em cartaz há mais de dez anos. É pura magia e eles possuem muito orgulho disto.

Essa magia nos conecta. Apesar das distâncias, é fácil perceber a singela celebração em torno da pluralidade de conteúdos nos quais estamos vivendo. No fim, há uma identidade cultural que nos une. O som que vem do deserto e as películas indianas carregam essências, vestes, cheiros e aspirações dos seus povos. Isso tudo fascina a nossa curiosidade. A nossa diversidade cultural é maravilhosa e toda e qualquer manifestação precisa ser preservada.


Há dois anos, o IBGE divulgou estudo que mapeia e monitora a gestão da cultura, visando analisar a produção cultural e fomentar políticas de preservação das tradições em suas origens no Brasil inteiro. Foram catalogados os ambientes culturais e o meu estado foi um dos destaques nacionais. Segundo o Instituto, o Maranhão foi o estado que apresentou a maior proporção de municípios com estrutura organizacional para a política de cultura, caracterizado como secretaria exclusiva, 62,8% (124), e a menor foi o de Santa Catarina, 2,4% (7). A gente sabe que o fato de existirem pastas dedicadas à cultura não significa muita coisa no Brasil, infelizmente, mas vamos olhar o copo meio cheio.

Esse estudo revela dados interessantes sobre a produção cultural como os que destaco a seguir. Olha só: sabe aquelas emissoras de rádio comunitária, com programação local bem amadora e super divertidas, saiba que elas estão presentes em 64,1% dos municípios, enquanto as emissoras de televisão comunitária podem ser encontradas em apenas 3,5% deles. Imagina quando essa galera descobrir que o celular deles também pode fazer lives, podcasts e contar historinhas diariamente. O que falta é a internet, mas a gente chega lá.

Lembra as videolocadoras? Saudades delas nos anos 90. Elas chegaram a seu ponto máximo em 2006 (82,0% dos municípios) e recuaram para 53,7% em 2014. Quero saber essa estatística depois do Netflix. Risos.

Já as lojas de discos, CDs, fitas e DVDs estavam presentes em 59,8% dos municípios em 2006, e recuaram para 40,4% em 2014. Quando fui a Santiago (Chile) eu encontrei uma única loja de discos naquela cidade inteira. Pasmem. Não existem mais lojas de cds, discos e vinis naquela cidade aos pés de Vale Nevado. E, por ser músico, confesso que ainda não consigo me desapegar do álbum físico, que pra mim, também é um baita souvenir da produção local. Enfim, esse estudo é maravilhoso e está disponível na íntegra aqui, mocinho.

O caminho é longo, mas é importante buscar o fomento à cultura em sua origem bem como meios para manter vivas todas as nossas heranças culturais. Mesmo que a camisa 'Fui a Salvador e lembrei de você' não distribua o cheiro das ladeiras do Pelourinho e nem aquela vibração dos tambores inebriados de axé, cada souvenir levado de lembrança carrega ali histórias, virtudes e tradições que precisam ser perpetuadas. Tenho muito orgulho da minha origem. Todos nós temos que ter. Afinal, o amor de cada povo mora ali.

Vinicius Muniz

Especialista em inteligência comercial e comportamento intercultural. Compositor de músicas que transformam. Amante de viagens, festivais e da diversidade.

|@vinaadelmar

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