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Abre Aspas | Salvador, 13 de maio de 2017



Após uma sequência de dias turbulentos, que pareciam intermináveis, uma luz no fim do túnel veio em forma de uma ligação com um interlocutor já em sua oitava cerveja e que aos berros indagava aonde eu estava. Respondi que estava em casa - esperando ser persuadido a sair pra qualquer outro lugar –  o convite para “o melhor boteco que você já viu” me convenceu.

Nas primeiras horas do dia me encontrava num grupo dos menos íntimos dos amigos, num bar que era um achado, nem muito cheio e (talvez pela presença do nosso modesto grupo) nem vazio. O open bar era de Heineken, a entrada franca e as pessoas eram todas bonitas sem saber, não tinham o esnobismo de quem sabia, tampouco maltratavam o grupo de fracassados no qual eu me incluía. Mal sabiam expressar algo que não carinho, sem pedir nada em troca. Aplaudiam vigorosamente o músico que claramente errou a ordem dos versos de “Construção”.

O álcool e todas as drogas que boa parte do lugar estava sob influência, eram coadjuvantes, ofuscados pela energia que emanava do prazer de toda aquela gente bonita. Estar ali era estar tão longe quanto possível da indiferença.

Um casal no canto estava tanto incluso como alheio a tudo aquilo, como se o lugar e sua energia orbitassem o mundo em que estavam.  O abraço dos dois, ainda com os olhos inchados de uma briga recente, era motivado pela vontade de não se largar nunca, ninguém ali estava se desculpando.

No ápice da beleza deste conjunto de cenas e agires fomos embora, todo decréscimo é deprimente, fugimos. 

No taxi da volta, o motorista que, pasmem, não era reacionário, conversou conosco sobre tudo menos política, num tom ponderado e otimista. Era flamenguista e morava perto do nosso destino, disse que não precisava pagar, então agradecemos e pegamos o cartão do camarada.

Gritei um “boa noite” no meio da madrugada, abracei Morfeu e em cinco minutos já roncava. Não sei se os outros integrantes da casa podem dizer o mesmo mas não me importei com os olhares mau-humorados que viriam no dia seguinte.

O dia amanheceu silencioso, como deve ser, ninguém se aventurou a me cumprimentar antes que se completassem algumas horas desde que acordara e mesmo quando o fizeram, a parte da conversa em que um finge interesse no dia do outro, foi dispensada. As crianças que costumam a gritar no hall do prédio ainda dormiam.

Nesse dia acordei cedo, sem ressaca apesar das dezenas de garrafas de cerveja da noite anterior e sem cansaço também, o despertador se fez desnecessário.

Todo alarde e toda pressa são desnecessários debaixo da terra, no fundo do mar.



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