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Fora da Tela | Blade Runner e as políticas de classe e gênero

"Replicants are like any other machine. They're either a benefit or a hazard. If they're a benefit, it's not my problem".
(Rick Deckard)

"Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor".
(Paulo Freire)

(ATENÇÃO: SPOILERS NA PISTA!)

Às vésperas da tão aguardada sequência de Blade Runner (1982), resolvo, junto com a torcida do Flamengo, reassistir ao original de Ridley Scott, que permanece sendo um dos meus filmes preferidos (não sei se da torcida do Flamengo também). Como é a marca das grandes obras artísticas, cada vez que nos encontramos uma nova faceta vem à tona - a questão, por exemplo, de Deckard ser ou não um replicante já não me tira tanto o sono assim (embora é óbvio que ele o seja). Nessa última revisitada, então, o que me chamou mais a atenção foi o seguinte: as implicações políticas da trama no contexto das discussões de classe e gênero, ou seja: como a realidade atravessa a ficção, explícita (através dos discursos das personagens) ou implicitamente (através das escolhas formais do diretor).

Blade Runner (a versão que uso como referência é a Final Cut) é apresentado de tal maneira que a forma com que o espectador interpreta a relação e a dinâmica de poder entre humanos e replicantes diz muito sobre suas próprias posições políticas. Uma leitura mais apressada pode leva-lo a encarar esta como mais uma história do good guy (Deckard) vs. os bad guys (os replicantes). Entretanto, os detalhes apontam para uma relação mais complexa, na qual Deckard, na leitura que aqui desenvolvo (sem pretensão de originalidade), é o verdadeiro antagonista da trama: sua única motivação é o medo da humanidade diante da potencial perda de controle sobre suas criaturas, o pesadelo da impotência do mestre perante o subordinado. Por outro lado, todas as ações dos replicantes, incluindo as mais violentas, são motivadas pela busca de sua própria liberdade, de sua emancipação.

Fascist pig
Os replicantes foram programados para servir a humanidade. Eles trabalham como bonecos sexuais, mineiros, soldados e, implicitamente, como caçadores de replicantes "defeituosos" - aqueles que, por começarem a desenvolver sentimentos e questionamentos complexos, aproximam-se demasiadamente da própria humanidade. Baixar a cabeça, servir e não prejudicar seus mestres: os replicantes são escravos, já notou parte considerável da torcida do Flamengo. A outra parte tentou argumentar que uma máquina não possui consciência, logo esta não é uma relação de escravidão; entretanto, estas máquinas em especial, modelo Nexus 6, não apenas possuem consciência e (vontade de) autonomia como também um profundo senso moral, maior do que o dos humanos da trama e o de outros modelos de androides mais "adequados" aos Três Mandamentos de Asimov.

O acontecimento que impulsiona o filme é a rebelião, e consequente fuga de uma colônia espacial, de um grupo de replicantes que descobriu possuir um prazo de validade implantado para impedi-los de desenvolver sentimentos complexos e, mais importante, agir a partir destes sentimentos. Tendo consciência de que todos os aspectos de sua existência foram pré-determinados pelos seus criadores, eles retornam à Terra para encontrar alguma forma de superar tais limitações. Aqui são caçados e, como crianças impulsivas diante de uma situação frustrante, reagem violentamente sempre que se sentem pressionados e acuados.

Vemos isso logo no começo do filme, quando o replicante Leon atira no homem que o interroga. E é a partir da frustração com a impossibilidade de resolver o problema do prazo de validade que Roy assassina Tyrell, o mega-empresário responsável pela sua criação. Aqui, o indivíduo depara-se com um Criador sádico, egocêntrico, megalomaníaco e, o que é mais desconcertante: mais frágil do que a própria criatura. A autoridade de Tyrell desmancha-se no ar, o Deus-homem aparentemente onipotente, o mitológico pai, não passa de uma barata agora esmagada pelas mãos de Roy.

Por outro lado, temos Deckard, um escravo "liberto" (literalmente aposentado) que, de volta à ativa, caça outros escravos qualificados como "a hazard" pelos seus senhores. Não bastasse seu papel de, digamos assim, capitão do mato, em uma das cenas mais controversas do filme ele abusa sexualmente de Rachael diante de sua recusa a beijá-lo. Para satisfazer e legitimar sua fantasia de dominação masculina, Deckard exige que Rachael, visivelmente abalada e confusa, repita frases como "Me beije". Note-se a música de fundo romântica representando o estado de espírito dele - se a intenção fosse representar o dela, talvez outra fosse mais adequada.

Imagine isso com Careless Whisper
depois com o tema de Tubarão
Há outros detalhes que apontam para o reflexo das relações de gênero no filme, dentre os quais destaco o fato de que Deckard apenas "aposenta" replicantes fêmeas (incluindo, no caso de Zhora, um covarde tiro pelas costas). Quem mata o primeiro replicante macho, Leon, é a própria Rachael, e Roy desliga sozinho por conta de seu mecanismo de obsolescência programada.

A reiteração da complexidade moral dos Nexus 6 aparece no embate final entre Roy e Deckard. Dividido em duas partes, na primeira Roy é retratado como um sádico, um predador brincando com a presa. Mas isso é negado na segunda parte: em uma inesperada inversão do clichê "briga na beira de um precipício na qual o vilão fica entre a vida e a morte e o herói tenta salvá-lo, mantendo seu compasso moral mesmo quando é mal sucedido", Deckard encontra-se dependurado no parapeito do prédio (o locus do antagonista no referido clichê) e Roy não apenas tenta salvá-lo como é bem sucedido. Ou seja: sendo Deckard humano ou replicante, a misericórdia vem das mãos do oprimido, da caça, o que aponta para a superioridade moral da mesma. Levando-se em consideração esse desfecho, a qualidade da caçada da primeira parte do embate é mesmo transformada, mostrando-se mais lúdica do que sádica visto que não era intenção de Roy "aposentar" Deckard (embora um ou dois dedos tenham sido quebrados no processo).

A partir dessa leitura do filme, o final, que apresenta uma Rachael aparentemente apaixonada por Deckard, adquire uma tonalidade extremamente sombria: o que temos é o caso de uma mulher que, impossibilitada de voltar à casa paterna após o assassinato de Tyrell e de contar com o apoio dos Nexus 6, não encontra outra saída para permanecer viva a não ser ficar ao lado de seu abusador. Blade Runner 2049 retoma essa questão, mas não comentarei como - apenas direi que, no meu entender, foi a pior "solução" possível, o que acabou sendo um dos poucos defeitos de um filme quase impecável.

Por fim, vale destacar que, embora as opressões de classe e gênero atravessem visivelmente o filme, para completar o "tríptico de preocupações"* da esquerda na atualidade há uma lacuna óbvia: a opressão racial. É notável que, em uma analogia tão direta à escravidão, a etnia dos escravos seja a mesma dos escravizadores europeus modernos, assim como é notável, como é discutido mais amplamente no artigo Blade Runner 2049's politics aren't that futuristic, a ausência de papéis importantes reservados a atores e atrizes "não-brancos", dada mesmo a diversidade étnica do universo do filme.

É isso. Assisti a sequência e ainda estou embasbacado com a qualidade da mesma (o que não é surpresa nenhuma levando-se em consideração a filmografia de Denis Villeneuve, um dos meus diretores favoritos da atualidade) - quando a poeira baixar tento escrever minhas impressões. Quanto ao tema da relação criador-criatura/opressor-oprimido, ele é recorrente na obra de Ridley Scott e é central nas narrativas de Prometheus e Alien: Covenant: a nova série dos xenomorfos tem o androide David como protagonista, e futuramente pretendo escrever algo sobre ela também.

I've seen things you people wouldn't believe
Attack ships on fire off the shoulders of Orion
Iwatched C-Beans glitter in the dark near the Tannhäuser Gate
All those moments will be lost in time
Like tears... in the rain
Time to die

* Terry Eagleton, The Ideology of the Aesthetic

Yuri da Costa

Paraibano de nascença, cronópio de criação, está convencido de que a arte projeta a vida tanto quanto a vida projeta a arte, além de acreditar que, no tocante à crítica de cinema, os fins justificam os spoilers.

|@yuri_da_costa

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