Ads Top

Toca-Fita | Bateria: ô instrumento danado


Cresci em roda de samba e sempre tive uma certa atenção pela percussão, sobretudo pelo surdo. Apaixonei-me pela bateria aos 13 anos de idade e, durante algum tempo, tive medo de morrer e nunca ter tido a chance de sentar na frente de uma e tocar. Até que em uma noite, na cidade de Maceió, ainda em 1994, meu pai pediu para o ilustre Beto Bala (Irmão de Carlos Bala – baterista do Djavan) que me deixa-se tocar no seu instrumento. Eu sentia a boca seca – mesmo depois de uns dois guaranás e uma fanta –, trêmulo, fui e toquei. Mas já sentei tocando. E num piscar de olhos, ou melhor, quando inventei de abrir os meus, percebi que estava o baixista e o tecladista me acompanhando. Era um sonho realizado. Dali, o tal medo foi embora e transformou-se numa sede de quem encontra um oásis em pleno deserto.

A grande batalha depois foi conseguir uma bateria. Ô instrumento caro. Ô instrumento danado.

Ao longo de nossas vidas passamos por grandes desafios e são eles que, quando superados, nos fazem amadurecer. Na minha vida tive alguns dos grandes, principalmente os familiares. Foram fases nas quais o “mais nada” era o que restava e decidi por abraçar o instrumento com toda minha força, para colocar toda minha raiva ali (coitados dos meus pratos). Sim, confesso que tocar bateria salvou minha vida e por mais de uma vez.

Posso dizer que “salvou”, porque décadas depois tive a oportunidade em trabalhar em uma casa de acolhimento para dependentes químicos, moradores de rua, e jovens que estavam situação de risco social. Nesse trabalho, dei aula de música pra essa galera, sendo um trampo difícil, perigoso e prazeroso. Os funcionários da casa – psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, oficineiros e seguranças –, eram a última família/chance dos acolhidos antes de irem parar em um presídio. Com a convivência e relatos dos jovens internos, eu pude perceber que existiam muitas coincidências com o que eu tinha passado com minha família e percebi que, se não fosse a bateria – meu refúgio quando o nada mais me restava –, quem bem poderia estar hospedado naquela casa, seria eu.

Tocar bateria me levou a conhecer várias cidades e estados do Brasil, como ainda Paris e outras cidades do interior da França. Pude tocar também com muitos músicos bacanas, passando por experiências marcantes no palco, na estrada, em festivais e em estúdios de gravação.

No ano de 2010 passei em um concurso público para professor substituto de bateria e percussão do Instituto de Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB) e por dois anos exerci “a profissão que sempre quis”. Tempos mágicos. Nesse período formamos a Varadouro Groove Orchestra (VGO), que se tratava de um projeto inusitado envolvendo nove baterias, baixo, guitarra, trombone e trompete. Eu, juntamente com Nildo Gonzalez, éramos os “encabeçadores” do grupo e deu muito, mas muito trabalho, porém, encantador. Apesar de poucos registros, até hoje me perguntam se o projeto pode voltar um dia. Você pode conferir uma das nossas apresentações, quando abrimos o Festival Mundo de 2010, aqui.

Em 2013, consegui passar na seleção de mestrado em Educação Musical na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e lá estava ela de novo. Minha pesquisa foi sobre o ensino e aprendizagem da bateria com uso/auxílio de equipamentos tecnológicos, defendida em 2015.

Ô instrumento danado, ninguém te registrou? Sério: não há como datar exatamente quando, nem dizer onde e quem inventou o instrumento. Mas a seguir, apresento um resumo de um dos capítulos da minha dissertação, no qual pesquisei justamente sobre ela, sua história e aprendizagem.

A bateria



Para definir o instrumento, eu segui o raciocínio de alguns dicionários e de outros pesquisadores do campo da música, entretanto também posicionei-me de acordo com a minha experiência:

A bateria é um kit de instrumentos formado primeiramente pelo seu núcleo – bumbo (acionado por pedal), caixa-clara e címbalos (pratos) –, podendo ser adicionado por um conjunto de tambores, outros pratos e instrumentos de percussão. Ela surgiu e se desenvolveu entre o final do século XIX e início do século XX, tratando-se de um instrumento que envolve o uso das mãos e dos pés, podendo abranger a independência de até os quatro membros do músico.

Aspectos da sua história


A invenção do pedal (final do século XIX) foi a maior responsável pelo surgimento da bateria. Outras peças que fazem parte do instrumento – como o bumbo, a caixa clara e os pratos, por exemplo – já existiam há muito tempo. Os instrumentos de percussão são bastante antigos, existindo tambores datados de 6000 a.C., encontrados na Morávia, região leste da República Tcheca.

Foi o pedal que deu a oportunidade de um só músico realizar a tarefa de dois, três ou quatro músicos. Por causa disso, diminuiu o número de músicos no palco, menos gastos para os empresários da época (cachês), e uma sobrecarga para apenas um músico. Tanto que um dos primeiros termos designados para a bateria foi “trap set”, algo como “conjunto de armadilhas”.

Um dos grandes nomes pelo surgimento do pedal foi Cornelius Ward (1796 – 1872), que por volta de 1850, tornou-se o responsável pela invenção e patente de três tipos de pedais – todos feitos em madeira –, nomeados de: 1) overhanging (pedal que é acionado por cima) ou swingpedal (pedal por impulso); 2) heel pedal (pedal acionado com o calcanhar) e 3) o toe pedal (pedal acionado com a ponta do pé). Esses pedais inventados por Cornelius continham uma haste que atingia também um prato que ficava afixado no aro do bumbo. Alguns anos depois, surgiram os double drums (tambores duplos), que consistiam em um bumbo com um par de pratos fixados no alto do tambor, e estes eram acionados através de um toe pedal, contendo um mecanismo que, ao ser acionado, atingia o bumbo e realizava a colisão do par de pratos concomitantemente (o avô do chimbal). A patente do double drums pertence a Albin Foerster, datada de 1888. Nesta época, ainda posicionavam a caixa clara apoiada de forma improvisada em uma cadeira.

Na evolução da bateria como instrumento musical, outra invenção importante foi o suporte (pedestal) para a caixa clara, patenteado por Ulysses Leedy em 1898, substituindo o improviso do uso de cadeiras para sustentar esta peça. Desde o período medieval os instrumentos de percussão fazem parte das composições eruditas, sobretudo a caixa clara. Este instrumento foi também utilizado em outros períodos da música ocidental – Barroco, Classicismo e Romantismo –, com exemplos de composições realizadas por Handel (1749), Gluck (1779), Beethoven (1813) e teve o compositor Rossini (1817) elevando a caixa clara à categoria de instrumento solista, com rufos introdutórios na composição La Gazza Ladra.


Assim, os primeiros sinais da bateria surgiram nos anos finais da década de 1880 e, em 1909, o processo formativo do instrumento meio que "se consolidou" com a invenção de William Ludwig: o pedal de bumbo construído em metal (ajustable toe pedal). Esse pedal foi composto por um sistema com uma mola, utilizada para que o batedor retornasse à posição inicial, permitindo que o baterista não se cansasse tanto quanto nos modelos anteriores. O ajustable toe pedal, inventado por Ludwig, serviu como modelo para outras fábricas de bateria e, até hoje, são várias as fábricas que fazem os pedais com base neste exemplo de engrenagem.

Os pratos também são bem antigos


A história dos pratos, na verdade, começou há cerca de 5.000 anos atrás, quando os metalúrgicos na Mesopotâmia – o “berço” da primeira civilização –, descobriram que podiam fazer suas ferramentas e armas mais fortes, combinando o cobre com um pouco de estanho. Eles chamaram a nova liga de metal de “Bronze” e foi um sucesso instantâneo. Ao longo dos próximos mil anos desta descoberta – juntamente com os processos de mistura, fundição, modelagem e têmpera (reforço do material por meio de aquecimento e de arrefecimento rápido) – foi mais refinado e se espalhou por todo o mundo antigo; para o sul onde fica o Egito, para o leste onde situam-se a Pérsia e a China, e para o norte, área que acabaria por se tornar a Turquia.

O chimbal (no RJ é chamado de “contratempo” e no sul do país, de “chipó”), trata-se de um par de pratos que se chocam. Inicialmente ele era tocado de forma simultânea com o bumbo; depois passou a ser controlado por um pedal independente, ficando posicionado próximo ao chão. Ele foi nomeado como low-hat e datado de 1924. Quando passou a ser posicionado mais acima, possibilitando ao baterista em tocá-lo também com as baquetas, foi chamado então de hi-hat. Só que não existe um consenso de quem foi que teve a ideia em elevar hat do low para o hi. Nas buscas que fiz durante o mestrado, o hi-hat foi apenas inserido em catálogos das principais fábricas de bateria no mesmo ano de 1924 e começou a ser fabricado em grande escala no ano de 1928, tanto pela empresa Ludwig como pela Slingerland.


A bateria, instrumento danado, não possui um registro histórico comprovando quando ocorreu o encontro das peças que formam o seu núcleo, mas ocorreram um conjunto de evoluções que contribuíram para o seu surgimento. Alguns historiadores relataram que existem textos escritos na língua germânica com argumentos que levam o nascimento da bateria para a Alemanha. Outros documentos colocam o sul dos Estados Unidos como local onde o instrumento foi posto em cena, principalmente na cidade de New Orleans.


Adendo: consegui ganhar minha 1ª bateria no final do ano de 1994, – antes das tretas pesadas rolarem com a família –, fazendo o seguinte acordo com os meus pais: eu teria que passar de ano. Eu estava na prova final em quatro disciplinas (desde a sexta série eu andava mal das pernas na escola), e precisava tirar oito na final de geometria. Passei. Venci.

Parte desse texto é uma adaptação da minha dissertação. Caso tenha interesse, a mesma está disponível para download aqui ou aqui.

   

Bruno Torrez

Filho de Bamba, cresceu em pagode de mesa. Mestre em Ed. Musical, baterista, ama o Grunge e as pessoas sensíveis. Como dizia seu pai: "Que sejamos sempre nós três. Eu, você e a nossa amizade".

|@btoorrez

Tecnologia do Blogger.