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Fora da Tela | Que horas "ela" volta?

"Pique jack-ass, mistério tipo lago ness, sério és
Tema da faculdade em que não pode por os pés"
(Emicida)

(Atenção: spoilers na pista!)

Três anos. Que horas ela volta? (QHEV? para os mais chegados), filme de Anna Muylaert, foi lançado em 2015. Estamos no ano da graça de 2017, e entre nós o ano do choque, o ano do golpe: 2016. É surpreendente como um intervalo de meros três anos é capaz de transformar nossa experiência estética e de estimular novos diálogos entre nós, as obras de arte e a realidade.

QHEV? é um dos filmes mais representativos do otimismo que tomou conta de boa parte do país ao longo da era Lula-Dilma, e especialmente de sua base eleitoral. Aparentemente, o velho Brasil da divisão Casa Grande/Senzala estava pronto para amadurecer e finalmente superá-la. As Vals conquistavam suas alforrias, os Fabinhos estavam pagando a conta pela indolência e privilégios das classes média e média-alta, as Jéssicas finalmente ocupavam as universidades.

A classe trabalhadora que abre as janelas apenas para dar de cara com as grades.

A estrada de Val conduz a personagem até o ponto de sua ruptura com seu estado de semiescravidão. Tal ruptura, assim como a superação do fato de Val ter abandonado sua filha para oferecer à mesma melhores condições de vida, apenas pôde ocorrer em um contraditório Brasil que, ao mesmo tempo em que investiu significativamente na expansão do ensino superior, aprofundou ainda mais o abismo da desigualdade que separa o 1% dos 99%. Mas… e depois do golpe? A família de Barbara e seu marido José Carlos, o herdeiro clinicamente deprimido, raquítico e fã n. 1 de bandas alternativas, deve ter sobrevivido mais ou menos incólume à temerosa turbulência tupiniquim. Por outro lado, como estará a família de Val na São Paulo de Dória, o prefeito da "ração para pobres"? A família despossuída, que mora de aluguel na periferia, que tentará, através dos ilusórios princípios da meritocracia e do “empreendedorismo”, sustentar-se com as próprias pernas?

A solução de Val, seu pedido de demissão, representa a estratégia ativista da recusa em participar das relações de exploração – recusa tal que é incapaz de acabar com essas mesmas relações, que não oferece a possibilidade de superação, de fato, a não ser em um limitadíssimo nível individual. A família de Barbara, por sua vez, permanece no conforto da mansão, e logo o quarto de Val, o quartinho de empregada que não foi derrubado, será ocupado por mais uma mulher em condições precárias de vida na grande São Paulo.


Na cena acima gifada, em que Jéssica encara o céu e o céu encara Jéssica, por uns breves instantes a classe trabalhadora volta a mirar, ou até mesmo sonhar com o paraíso escondido entre a natureza e o demasiadamente humano muro de concreto. Nos breves instantes das quase duas horas de filme, a nova geração redime os sacrifícios da passada e permite mesmo que esta volte a sonhar – o que fortalece o caráter trágico do golpe de 2016, a intensa ressaca daqueles efêmeros e em muitos sentidos ilusórios momentos de ebriedade da era petista.

Entretanto, acredito que Muylaert, em que pese todo esse otimismo (já naquela época infundado), não dá ponto sem nó. É uma cineasta de sutilezas, de mensagens fortíssimas escondidas nos mínimos detalhes, no que não é dito, mas mostrado. Nesse sentido, destaco, em primeiro lugar, dois trechos que apontam para a turbulência no substrato social brasileiro, que não apenas não foi solucionada, mas que parece ter se agravado ao longo desse nosso jovem século XXI. Por um lado, os estereótipos e a opressão de gênero continuam intactos mesmo entre os trabalhadores da casa, visto que Val chega mesmo a servir o almoço para o jardineiro Antônio e para o motorista Vandré. Por outro, a ideologia conservadora de parte da própria classe trabalhadora aparece no momento em que Edna, a outra empregada da casa, cobra de Jéssica que ela ajude a mãe no serviço, uma preparação para seguir seus passos.

Em segundo lugar, temos a importância da arquitetura modernista brasileira para a trama, seja como tema de conversa entre Jéssica e José Carlos, seja como espaço visitado pelas personagens: a casa de Barbara (que tem, segundo Jéssica, “um quê meio modernista, mas sem ser exatamente”), o Edifício Copan, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e o edifício da Sudene. É preciso buscar qual o sentido estético da presença desse elemento tão específico. O modernismo arquitetônico de Niemeyer e cia. é caracterizado pelo uso intensivo do concreto armado, e é neste material que, acredito, reside a mensagem: o concreto é extremamente maleável no processo inicial das obras; mas, uma vez assentado, torna-se um dos materiais mais resistentes da construção civil. Para destruí-lo, é necessário um grau considerável de violência. Será que o mesmo não poderia ser dito sobre a formação do nosso país, que foi moldado inicialmente para servir aos interesses colonialistas europeus, e que após a colonização deixou o enrijecido legado de nossa perversa hierarquização social?

Em terceiro lugar, há um momento maravilhoso, de pure ideology and so on, como diria o filósofo Slavoj Zizek, onde Muylaert deixa escapar claramente o caráter classe média-alta de sua visão pessoal, aquele que observa o “povão” com respeito e admiração, mas do alto de sua condição privilegiada (sobre isso, recomendo veementemente ao leitor ler esta entrevista com a diretora). As pistas para isso estão escondidas no uso da trilha sonora. Esta é muito econômica (o que me agrada bastante), e é utilizada para reiterar as vivências das personagens: vemos isso tanto na ida de Val e Raimunda ao forró quanto na bossa-nova da canção Águas de Março (Tom Jobim) que soa ao longo da festa na casa de Bárbara. Nos dois casos, temos a chamada trilha diegética, que é a que está rolando no mundo das personagens. Mas há um momento de trilha extradiegética que quero destacar: quando Val, após saber da aprovação de Jéssica, transgride pela primeira vez as regras da casa e entra na piscina da família. Neste trecho, afetivamente intenso para a personagem, uma peça instrumental, Solidão n. 4 (Vitor Araújo), soa como música de fundo, ou seja, apenas acessível a quem está fora da tela (huehue); ironicamente, é uma composição que pertence ao universo da classe média-alta da diretora e não da empregada da família. Neste exato momento é que aprendemos que a visão da câmera narradora é a visão do outsider que está no processo de tecer seus comentários sobre o outro, e que possui vivências muito distintas da personagem ali retratada.


Mas este filme não é só das sutilezas. "A gente não pode comer na mesma mesa deles não", diz Val à Jéssica. A divisão dentro da casa da família é extremamente rígida, a modernização do sistema Casa Grande e Senzala. Entretanto, a opção por retratar as relações de modo tão dicotômico acaba desconsiderando o fato de que esse extremismo esconde relações mais "cordiais", digamos assim, mas tão ou mais perversas quanto. Podemos perfeitamente pensar em um ambiente familiar mais flexível, onde o quartinho de empregada seja uma suíte comparável ao quarto de visitas da casa de Barbara, mais amplo do que o quarto de Val; onde família e empregad@(s) comam nos e frequentem os mesmos ambientes. Neste caso, as divisões sociais não desaparecem, apenas são camufladas. É um espelho do finado Estado de Bem-estar Social, no qual os trabalhadores conquistaram uma série de benefícios importantes do Estado, mas também onde a hierarquia social não é modificada. É também a questão da “empresa família”, do chefe que sai pra tomar cerveja com os empregados, da empregada que “é da família” mas que não tem direito à herança. As divisões permanecem, nesses casos, mas são mais difíceis de observar – isto é, até o momento em que, por capricho ou dívidas, o patrão subitamente vende a empresa; até o momento em que a cerveja transforma-se num convite para a demissão voluntária (com a possibilidade de ser recontratado por um salário significativamente mais baixo); em que a empregada é desumanamente demitida por justa causa por ter usado dois dedos de creme da patroa, como Val faz no filme.

Chegando à última parte de nosso diálogo com a obra, proponho um exercício de reinterpretação de seu título, especificamente do pronome que coloquei entre aspas. Lembremos, primeiro, que na trama esse "ela" refere-se às três personagens centrais: Val, Jéssica e Barbara, todas compartilhando uma relação de abandono, em maior ou menor medida, de seus filhos: Barbara foi uma mãe distante ao longo da infância de Fabinho, daí a forte ligação afetiva deste com Val (ao final do filme, ficamos sabendo que ela pagará para o filho uma temporada na longínqua Austrália); Val abandonou Jéssica em busca de melhores condições de vida em São Paulo (e, no final, busca se redimir através de seu neto); Jéssica abandonou temporariamente João, seu filho, em Recife, para poder se dedicar ao processo de seleção da FAU (fica implícito, no meu entender, que a ideia de trazer João para São Paulo não agrada tanto a menina, principalmente quando, após Val sugerir que João vá morar em SP, Jéssica pergunta “E você vai cuidar dele, Val?”).

Voltando então à reinterpretação do título, podemos fazer as seguintes provocações:

1) Que horas ela (a velha estrutura arcaica brasileira, do ódio ao povo e às minorias, da perversa divisão entre Casa Grande e Senzala) volta? Bem, a julgar pelos últimos acontecimentos políticos do país, pelo recrudescimento do ódio reaça-conservador, ela já está de volta (se é que algum dia tenha deixado de existir…).

2) Que horas ela (a estratégia petista da conciliação de classes, do reformismo e seus eventuais e desastrosos limites) volta? Talvez logo, visto que o próprio Lula, de olho em 2018, já está no processo de fazer as pazes com o PMDB do golpista Temer, reeditando a velha estratégia que nos trouxe ao caótico biênio 2016/2017.

3) Finalmente: Que horas ela (a transformação radical da sociedade, a revolucionária derrubada das estruturas conservadoras de concreto armado) volta? Nesse caso, vou deixar para o leitor e para a leitora a tarefa de casa de avaliar se essa transformação algum dia esteve entre nós, de fato. Mas que fique claro que, sim, há uma terceira alternativa.

Fecho a coluna de hoje contrapondo ao filme uma pequena obra-prima do hip-hop nacional: o clipe de Boa Esperança (Emicida), dirigido por Kátia Lund e João Wainer e lançado quase ao mesmo tempo que QHEV? Esta comparação foi feita na época de lançamento de ambos, mas reforço aqui no intuito de destacar que, quando a representação artística parte dos insiders, neste caso de vozes da periferia falando sobre a periferia, as escolhas estéticas são distintas, e Emicida acaba oferecendo soluções, digamos assim, mais enfáticas ao problema político central da trama de Muylaert.



Yuri da Costa

Paraibano de nascença, cronópio de criação, está convencido de que a arte projeta a vida tanto quanto a vida projeta a arte, além de acreditar que, no tocante à crítica de cinema, os fins justificam os spoilers.

|@yuri_da_costa

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