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Fora da Tela | Querida, quebrei o Capitão Fantástico

 The term suspension of disbelief or willing suspension of disbelief has been defined as a willingness to suspend one's critical faculties and believe the unbelievable; sacrifice of realism and logic for the sake of enjoyment.

(Atenção: spoilers na pista!)

Capitão Fantástico (2016). Captain Fan-fuckin’-tastic. Um dos mais recentes sucessos indies de Hollywood. Na época do lançamento, um chegado me recomendou veementemente a película, certamente surfando naquela onda de que, se todo músico está programado para fazer tatuagem de figuras musicais, problematizadores gostam mesmo é de filme com diálogos-lacradores-tipo-textão-de-facebook. Me considero ambos, de certa forma, porém as duas ideias simplesmente não me agradam. Padres realmente gostam dos especiais bíblicos de fim de ano? Não sei. Talvez nunca saiba.

ENTÃO, Capitão Fantástico. Ótimo exemplo.

Ótimo pôster também

A citação que abre o ensaio é a primeira frase do verbete SUSPENSION OF DISBELIEF, da Wikipedia. É um conceito sobre a relação entre apreciador e obra de arte: a boa arte te leva a anular por alguns instantes o “mundo lá fora (da tela)”; ela te inspira, portanto, a suspender sua descrença de que aquilo não passa de uma narrativa fictícia. O cinema é certamente uma das formas artísticas que mais facilmente propiciam isso, e quando o filme é bom mesmo não há Cristo ou Temer que nos faça voltar a este miserável planetinha. E é aí que mora o problema que me inspirou a escrever o presente ensaio: simplesmente não consegui fazer essa suspensão no filme de Matt Ross, não na primeira vez que assisti, e isso me permitiu experienciá-lo de uma forma meio… inusitada.

Capitão Fantástico é a história de um pai que cria seus SEIS filhos no meio do mato, ensinando de tudo, de física quântica a técnicas de guerrilha, passando por caça e Chomsky. Muito Chomsky. Meu Deus quanto Chomsky. Após a morte de Leslie, sua esposa, ele os leva de volta à cidade para participar dos devidos rituais fúnebres, quiçá subvertê-los. A partir daí, o filme transforma-se em um misto de road movie com comédias à Wes Anderson e, sei lá, Pequena Miss Sunshine. O aspecto cômico deve-se à incapacidade da família em se adequar aos costumes citadinos e funcionar “como qualquer pessoa normal”. Pense na Família Buscapé, só que um pouco mais maoísta.


E um pouco mais hipster

Mas não foram esses elementos que “suspenderam minha suspensão”. Foi uma simples linha de diálogo, na verdade, que ocorre logo após o jantar na casa de Harper, irmã de Ben: um dos sobrinhos dele (Juskson? Jactin? Não sei, são basicamente o mesmo lado da mesma caricatura) pergunta para Harper como a tia morreu. Seu pai desconversa e não revela a causa da morte. Entretanto, Ben, irredutível em seu apego pela verdade, revela que Leslie se suicidou, o que faz com que Harper se retire da mesa extremamente ofendida, oh. Após o jantar, a anfitriã tenta tirar satisfação com o irmão, no que Ben diz, na marca dos 52:29: Eu não minto para meus filhos.

Som de agulha rasgando o vinil

Foi exatamente aqui que a coisa toda desmoronou, subitamente, sem aviso prévio nem mesmo esforço cético de minha parte: “Mas, Viggo Mortensen”, pensei automaticamente, “você é um ator, essas crianças também são, a cada respiração vocês estão mentindo para si mesmos. Pior, a rigor você está mentindo para mim! Por que, Viggo Mortensen, por quê???”. Quer dizer, o espelho deste reflexo rachou bonito, e rachou forte porque até aquele momento eu estava relativamente bem mergulhado na trama. Após o filme me lembrar que é apenas um filme, o fato de que aquele mundo é uma mera fantasia hollywoodiana foi ressaltado a cada momento ultrasincero de Ben. Ou seja, não consegui mais deixar de lado o fato de que o Capitão Fantástico, que se pretende o Capitão Realista, é de fato Capitão Fantástico.

Ah, a maravilhosa contradição forma – conteúdo.

Quando Ben afirma não ser algo ou não estar fazendo algo, esse algo, visto através da “suspensão da suspensão”, é precisamente o que ele é ou está fazendo. Ele não mente para seus filhos, mas Viggo Mortensen está mentindo para aquelas crianças, e para nós inclusive. Em um outro momento, que verdade seja dita é bem tocante, quando a família resolve cremar com as próprias mãos a matriarca, Ben toca o rosto e diz Meu rosto é meu, ele toca as mãos e diz Minhas mãos são minhas, e da mesma forma, Minha boca é minha. Passei esse trecho todo gritando com meus inconformados botões: “NÃO, BEN! Teu rosto pertence a Viggo; tuas mãos e tua boca também. Já você, Viggo, você vendeu teu corpo para essa produção, o que acrescenta mais uma mentira nesse balaio: teu corpo, Viggo, pertence momentaneamente ao Matt Ross”.

Fazendo a necessária autoanálise para saber o que diabos aconteceu comigo nesse processo todo, cheguei à conclusão de que isso ocorreu por causa do clássico dilema entre mostrar ou declarar uma ideia dentro de uma dada narrativa: se você declara diretamente algo, sempre há espaço para que um apreciador inconveniente como eu diga “não, personagem x, você está redondamente enganado”. Por um lado, as declarações de Ben me levam a crer que, com todo seu conhecimento, o personagem não negaria que sua aderência à verdade-nada-mais-que-a-verdade-somente-a-verdade-so-help-me-Chomsky é um posicionamento propriamente político, portanto ideológico. Mas, por outro, fico me perguntando até que ponto a personagem, que teve seus diálogos cuidadosamente lapidados pelas mãos de Matt Ross e sua própria vivência enquanto rico cidadão estadunidense e ser hollywoodiano, seria capaz de reconhecer que muito do que ele faz e defende é completamente compatível com várias das ideologias que hoje suportam a tirania do capitalismo.

"Você não passa de um fruto da imaginação humana", diz claramente
Leslie aqui.

Quando nos afastamos do filme as coisas começam a ficar mais claras: a fantasia do “abandonar tudo para levar uma vida sustentável no meio da floresta” é, geralmente, branca e masculina, uma possibilidade de fuga individual reservada a pouquíssimos e que deixa intocada a estrutura social, como muito bem explica este artigo aqui; a limitada, para fins revolucionários, ideia da desobediência civil (basta que o supermercado furtado no filme recorra ao seguro para cobrir suas perdas e continuar funcionando normalmente); o tratamento estereotipado do marxismo enquanto fase "rebelde" da adolescência (o filho, que já foi trotskista, hoje é maoísta – mas os marxistas são tão genocidas quanto os capitalistas, declara literalmente Ben); por fim, aquela defesa do consumo de produtos orgânicos feita para agradar um público de “consumidores conscientes” (se bem que esse ponto foi muito bem colocado, visto que é a família de Harper, pequeno-burguesa e condicionada, que o realiza, e não a de Ben, que prefere resolver o assunto com as próprias mãos. E facas.).

Mas chega de ressaltar os pontos negativos, pois há uma série de elementos que, para mim, redimem a película. A trilha é boa no geral, embora bastante eclética e não muito econômica para o meu gosto. A fotografia é belíssima.



A afirmação da possibilidade de criar uma nova geração disciplinada e intelectualizada é extremamente importante numa época em que cliques são medidas de status e o conhecimento, que para ser conquistado demanda necessariamente autodisciplina, e não apenas a mera motivação subjetiva, esteja sendo substituído, em larga escala, por uma enxurrada de informações fragmentadas, efêmeras e inúteis. Temos também a articulação entre o caos da natureza e a capacidade de auto-organização humana, ou seja: a ideia de que você sai da civilização, mas a civilização não sai de você. A proposta de Ben (em um dos melhores exemplos de como é bom mostrar, e não declarar) não é o abandono completo da civilização: a cabana da família encerra vários totens humanos, uma estante cheia de livros (provavelmente de Chomsky), cômodas, potes, quadros, fotos, um tocador de vinil, instrumentos musicais. É uma casa de classe média só que no meio do mato. Sem contar que Ben é dono de um ônibus massa.

Talvez, o aspecto mais positivo da trama para mim seja justamente a concepção pedagógica que Ben e Leslie desenvolveram para seus filhos. Não é, por um lado, a chamada "pedagogia do agrado", através da qual os professores são estimulados a trabalhar apenas a partir de conteúdos já familiares aos estudantes (imagine uma aula de música onde apenas se trabalhe com o repertório da indústria cultural – acredite, embora sedutora, a ideia não é tão saudável quanto você pensou aí). Por outro, não é uma educação tradicional, enciclopédica, baseada em decoreba de fatos, fórmulas, em leituras superficiais do conhecimento: na casa de Harper, Ben pede para que Zaja, de oito anos, diga o que é a Bill of Rights (a constituição estadunidense) logo após seus sobrinhos terem falhado miseravelmente na tarefa. Em primeiro lugar, a garotinha começa a recitá-la de cor, no que Ben a interrompe e pede para que ela dê sua interpretação sobre o texto; ela não apenas o faz, mas discorre sobre seus impactos na sociabilidade estadunidense e como isso contribui para que a mesma seja distinta da sociabilidade chinesa.

Em outro momento, a personagem Kielyr diz que está lendo Lolita e, quando indagada sobre o que está achando, ela responde apenas: É interessante… Há uma comoção geral na família, que cobra que ela elabore a resposta. Isso me remete a uma reclamação de Julio Cortázar, que instiga seus leitores a desenvolver uma relação mais… “máscula” com a obra de arte, mais ativa, uma dança, uma briga, intensos e calorosos debates (ele era meio machista, dizia que o tipo de apreciação passiva e superficial criticado é fundamentalmente “feminino”, mas o núcleo do argumento é extremamente válido). Enfim, ela descreve a trama, e Ben ainda não fica satisfeito. Apenas quando dá suas impressões pessoais de fato, apenas quando Kielyr interage verdadeiramente com o livro, é que há a aceitação geral da resposta.

A mensagem final do filme, no tocante à educação, também é importante: ficamos sabendo que Ben finalmente deu o braço a torcer e matriculou os filhos em escolas formais. Mas isso, no meu entender, não representa uma derrota, pelo contrário: é o reconhecimento de que não há como mudar o mundo estando exilado na floresta, seja metafórica, seja real. É preciso confrontá-lo em primeira mão, principalmente seus aspectos negativos, e encontrar formas de resistir no mundo real para conseguir transformá-lo, de fato. E, da mesma forma que a família de Ben levou para a floresta a civilização abandonada, agora ela volta para a civilização com a disciplina, os conhecimentos e a sensibilidade proporcionados pela vida natural, e talvez este seja o equilíbrio dialético ideal para a transformação que precisamos e almejamos não apenas para nós mesmos, mas para a sociedade como um todo.

Reassisti a Capitão Fantástico para escrever este texto e confesso que dessa vez ele me prendeu mais. Mas, mesmo assim, permanece um certo gosto amargo na boca… o filme acaba, tudo que é fantástico desmancha-se no ar, Mortensen, Ross etc. voltam a suas mansões hollywoodianas um pouco mais milionários e é isso e tchau e bença.

Power to the people
Stick it to the man

Yuri da Costa

Paraibano de nascença, cronópio de criação, está convencido de que a arte projeta a vida tanto quanto a vida projeta a arte, além de acreditar que, no tocante à crítica de cinema, os fins justificam os spoilers.

|@yuri_da_costa

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