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Modo Aleatório | Brasília, a Seattle Brasileira!


Estou prestes a completar trinta e dois verões, boa parte dele vivido e sobrevivido em São Paulo, isso significa que novidades, informações, vanguardismo, acessos, cenas musicais, nunca fizeram falta para mim, sempre tinha algo acontecendo ou para acontecer, no subúrbio, na capital, no rap ou no rock, nas coisas que vinham de fora e nas coisas que iam para fora. Viver em São Paulo é viver cercado daquilo que é global, mesmo com suas variáveis locais, continua sendo global.

Porém existem alguns laços transcendentes que me ligam a Brasília, pessoalmente e na Música. Meus pais moraram no DF por um período longo na década de oitenta, viveram de perto, meio que a margem, mas estavam lá durante o surgimento do rock brasiliense em sua primeira fase. Fui gerado no serrado, porém, no oitavo mês de gravides voltamos (eu na barriga da minha mãe) para solo paulistano. Vivi toda minha infância e adolescência ouvindo sobre Brasília, sobre a peculiaridade de se viver lá e de como era bom, saudosismo típico brasileiro.

Quando comecei a entender melhor o mundo da música, fui ligando os pontos compreendendo o que Brasília significava, mas pra isso é necessário voltar três décadas. Todos os movimentos de grande representatividade musical no Brasil foram oriundos do eixo Rio-São Paulo, com alguns lampejos de Minas Gerais, mas a bossa nova, a Tropicália, jovem guarda, tudo isso explodiu no eixo.

Brasília era uma cidade nova, fundada para ser nossa capital do país, sem histórico cultural e isolado do eixo. Muitos viviam na cidade de segunda a sexta e voltavam para suas terras aos finais de semana, mas a cidade aos poucos, principalmente pela máquina pública, foi ganhando corpo, população e estrutura residência. Onde tem população tem jovens, onde tem jovens tem inquietação, onde há inquietação há o desejo por coisas novas.


Os filhos de magnatas da alta sociedade brasiliense tinham acesso ao conteúdo de fora, com a cena de Londres e de Nova Iorque, a galera menos favorecida escutava o que tocava nas rádios e só. Para nossa sorte, essa elite de playboys era composta por, Renato Russo, Herbert Vianna, Dinho Ouro Preto, Dado Villa-Lobos, entre outro que formaram aquilo que conhecemos como a base do rock nacional. Legião Urbana, os Paralamas do Sucesso, Aborto Elétrico, capital Inicial, Plebe Rude, eles foram a primeira geração do legitimo rock nacional.

Criaram suas próprias referencias, sua própria cena, não beberam nada da cena paulistana e carioca, não recebiam bandas de fora, pouco saiam de lá. Mas criaram um movimento que ecoa até hoje.
Viajando para a Costa Oeste americana, só que alguns anos depois, encontramos o mesmo fenômeno em Seattle. Cidade portuária no extremo dos EUA, longe de Los Angeles e muito mais longe de NY. Nenhuma banda ou grande artista incluía em sua turnê Seattle devido as longas distancias, localmente não se tinha nenhum grande nome, mas surgiu entre Pubs e Tavernas algumas vozes que criticavam, questionavam e davam ouvidos aos jovens locais, encabeçados por Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, Alice Chains e muitos outros, o movimento Grounge foi o último grande movimento de rock ouvido da nossa geração. Fato! O resto é história.


Seguindo a timeline, Brasília, Seattle, Brasília! Voltamos a capital tupiniquim nos anos noventa, quando uma nova horda se levantou, diferente, mais pesada, mais eclética, mas pelo mesmo motivo, tornar a cena local forte e viva, não depender do eixo para darem voz a quem vive a realidade candanga do serrado. Raimundos, Rumbora, Alma Djem, Natiruts, Maskavo, Fullrage, entre as mais conhecidas, eram quem representavam essa geração noventista.

Pude conhecer Brasília depois de adulto, sinto o apreço especial pela cidade, assim como pela cultura, que mesmo semi-isolada hoje, ainda respira algo local, Seattle entrou no mapa mundial depois do Grunge, minhas bandas preferidas tiveram origem desses locais, meus pais me originaram no DF e esse é nosso elo, a música, a história e o legado,  poucos lugares conseguem sugerir algo que tenham tamanha representatividade como esses lugares, espero que eles tenham folego para criar algo novo e mais uma vez, depois de vinte, trinta anos acredito que novas culturas do rock terão espaço para se manifestarem, pois já existe história, já existe referencia!




Filipe Nascimento

Uma mente moderna, porém mal acabada. Paulista, urbano, viajante, sempre embalado por uma trilha sonora que transita entre o rock e o hip hop, entre as referências e as novidades.

|@Filipedonasc

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