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Toca-Fita | Música e meditação: como saí de um transtorno de ansiedade



Não é de hoje que nós utilizamos a música como terapia. Afinal, ela tem o poder de mexer com as nossas mentes. Hipócrates, o “Pai da Medicina”, reconhecia Platão e Aristóteles como os pioneiros da Musicoterapia. O primeiro sugeriu a música para a saúde da mente, do corpo e para que pudéssemos vencer as angústias fóbicas. O segundo apresentou documentos que descreviam os efeitos benéficos da música sobre as nossas emoções incontroláveis. Na mitologia Grega é que a ligação ficou clara, pois Apolo, além de Deus da Medicina, também era o Deus da música.
 
Na concepção científica, a Musicoterapia consolidou-se no pós Segunda Guerra Mundial, entre os anos de 1934 e 1945. Ou seja, é uma ciência relativamente nova, ainda cheia de mistérios e pontos subjetivos (devido à sua natureza), mas que muito tem feito nas últimas décadas. Embora não podemos conferir à Musicoterapia um papel curativo em absoluto, porque ela não é um tipo de “antibiótico”, que irá desatar os nós e esclarecer os traumas de forma instantânea. Porém, ela faz parte de um processo que é capaz de modificar o ser humano e para melhor.
 
Na realidade a Musicoterapia é muito mais um meio para nos ajudar a chegar em um fim. E esse fim nunca chegará. Complexo, não? Vivemos em uma sociedade que busca cada vez mais o equilíbrio, a felicidade, bem-estar e melhor qualidade de vida e, assim, com a utilização da música com fins terapêuticos, podemos conseguir um caminho para isso. Além disso, ela está ao nosso alcance, seja em nossas playlists, como também em um profissional da área de Musicoterapia.
 


O Transtorno de ansiedade do Bruno

Conheço um grande psicólogo da área da bioenergética. Quando comentei com ele que terminei recentemente um tratamento para transtorno de ansiedade, ele me disse o seguinte: “Tá chovendo gente com isso no consultório, Bruno”. Vencer o transtorno não foi fácil. Não mesmo. Fiz um conjunto de atitudes envolvendo terapia, psiquiatria, meditação, pilates e caminhadas. Esse foi o caminho das pedras que funcionou comigo. Na verdade, encontrei muito preconceito por aí. Pessoas dizendo que era frescura, ou coisas do gênero. Mas, quando você está em uma fila de uma padaria, e seus braços e pernas começam a formigar, surgindo um esforço para ficar equilibrado, as costas encharcam de suor e espasmos nos músculos do rosto, é quando você simplesmente vira para pessoa de trás da fila e diz: “Preciso de ajuda. Estou passando mal”. São situações complicadas. Nesse período fui até o posto de saúde mais próximo onze vezes. Serviço público, atendimento demorado. Quando atendido, mediam a minha pressão: normal. Batimento cardíaco: normal. Ou seja: as crises de ansiedade tornaram-se um transtorno de ansiedade, isso pela forma corriqueira que as crises aconteciam. Certas ocasiões, entre duas, três vezes por dia.
 


Eu já estava fazendo terapia desde o ano passado. A terapeuta nomeou como transtorno devido à frequência das crises e me encaminhou para um psiquiatra. Então passei a tomar Sertralina e tive a “Páscoa do inferno”. Os quatro primeiros dias com a medicação foram horríveis, percebendo que a minha mente estava adaptando-se à química, eu mal conseguia andar em linha reta e tive sensações de “sentimentos de plástico”. Na segunda psiquiatra, reduzimos a dosagem pela metade e inserimos Dramin para a tontura e auxiliar no meu sono. Funcionou.

Meditação entrando em campo

Quando um grande amigo que está residindo no Canadá soube da reviravolta que tive na minha vida, ele não só me ajudou muito, mas também me enviou um livro chamado “10% mais feliz” de Dan Harris. No livro, Dan narra como começou sua carreira de repórter e apresentador em telejornais. Muito tímido, utilizou drogas em demasia para elevar sua autoestima, foco e aceitabilidade em grupos. Só que deu ruim. Anos mais tarde ele sofreu um ataque de pânico ao vivo. No livro, ele colocou como a meditação conseguiu “consertá-lo”.

A meditação não possui fórmulas mágicas, muito menos regras rígidas para seguirmos e realiza-la. Mas explicarei aqui, partindo das descrições de Dan Harris, como foi que a meditação funcionou comigo:

1. Busquei um local calmo e tentei realizar sempre no mesmo horário;

2. Procurei sentar confortavelmente e alinhar a minha postura;

3. Olhos fechados, inspiração pelo nariz e expiração pela boca, lentamente e usando a respiração diafragmática;

4. Durante o processo, apenas procurava foco na respiração. Tipo: “ar que entra, ar que sai”;

5. Não conseguia. A minha mente me levava a pensar em alguma outra coisa além do foco na respiração. Assim, gentilmente, perdoava-me e voltava a pensar na respiração: “ar que entra, ar que sai”;

6. Fiz esse exercício por cinco a dez minutos aproximadamente todos os dias pela manhã.

Foi difícil. Foi tão simples que foi difícil. Ficava preocupado com uma dor nas costas que estava incomodando; saliva demais para deglutir; problemas no trabalho/relacionamento; metas a atingir na vida; e mais uma enxurrada de coisas. Perdoar-se e ser gentil consigo mesmo é, também, tão simples que é difícil. Mas o exercício é justamente esse, deixar o pensamento vir e ir embora, e voltar a focar-se na respiração. Devemos ter em mente que não precisamos de nada nesse intervalo de tempo, apenas de “ar”. Fato.

Musicoterapia entrou na jogada e fez um golaço

Nas primeiras duas semanas meditei por cerca de cinco minutos. Estava bem difícil por causa de um ponto de tensão na omoplata esquerda e, mesmo com a dosagem reduzida da medicação, ainda sentia alguns dos seus efeitos colaterais. Aí me veio a ideia de juntar a música durante as meditações. Bingo.


Eu apliquei essa estratégia em um antigo emprego que tive, no qual eu ministrava aulas de música para ex-moradores de rua e dependentes químicos. Nele, criamos e gravamos composições musicais e pude também aplicar a Musicoterapia, selecionando músicas de acordo com o gosto musical das pessoas internas (mas com intenção de expandi-los). Esperava os picos das medicações que eles estivessem tomando e, no seu leito, colocava as músicas em fones de ouvido. O processo deu muito certo.

Anos depois, chegou o momento de aplicar esse processo em mim mesmo. Busquei músicas para relaxamento no Spotify e acabei achando uma playlist chamada “Deep Focus”. Uma colega minha, que reside em Minas Gerais, chegou a publicar no seu Facebook: “Nem precisa perguntar: quando a gente vê o amiguinho escutando a playlist Deep Focus no Spotify a gente já sabe que o bicho tá pegando”. E retruquei: “Mulher, Deep Focus é <3”. Claramente que não deveremos colocar as músicas do Deep Focus em uma festa, ou num churrasco. Seria um fiasco total. Mas o propósito dessa playlist é justamente o inverso. Proporcionar a introspecção por meio de sons com timbres e melodias calmas, frequências, andamentos e ambiências para essa finalidade.

Não são todas as músicas desse canal que podem funcionar com qualquer um. Nesse ponto o Musicoterapeuta é indispensável, pois esse profissional pode conseguir mais facilmente quais são os sons para potencializar algum aspecto que envolva o desenvolvimento ou reabilitação do indivíduo em alguma área.

Um dos grandes nomes envolvendo o estudo entre a mente humana e os sons foi Oliver Sacks (1933-2015). Neurologista e químico amador, Oliver pesquisou por mais de 50 anos essa relação sonora/mental entre os seres humanos. Ele descreveu alguns dos casos mais significativos em seu livro “Alucinações Musicais” (2007), tratando-se de uma leitura quase que “obrigatória” para os apaixonados por esse campo. Volto a tratar dele e um dos seus estudos mais adiante.

Dessa forma, colocarei em seguida três músicas das quais funcionaram muito bem comigo, durante as minhas meditações:

1. Bless Those Tired Eyes (Clem Leek);
2. Beyond this Moment (Patrick O’Hearn);
3. Losing You to You (Hammock).

Ainda colocarei uma artista um pouco difícil de achar, pelo motivo do seu nome artístico: “April Rain”. Mas foi uma descoberta e tanto para mim e as minhas meditações. Ela tem um estilo muito calmo, baseado no piano como instrumento de frente. Não são todas as músicas dela que pode funcionar durante a meditação, mas a faixa “Say it” é de uma simplicidade capaz de mexer com o âmago do ser mais estressado da face da terra. Sugiro que você teste em colocar um fone de ouvido, fechar os olhos e dar um play no EP abaixo.
 

Durante esse ano, realizei meditação na escola com turmas do fundamental II e EJA, nas quais dou aulas de artes. Expliquei o processo aos alunos conforme narrei aqui no texto e coloquei essa faixa da April Rain como “pano de fundo”. Atualmente, tenho cerca de 370 alunos e apenas quatro não “gostaram” de meditar. Em todas as turmas, pelo menos um(a) aluno(a) chorou e isso não quer dizer que foi ruim. Pelo contrário. Foi um momento em que a pessoa pôde entrar em contato consigo mesma de uma forma única. Sentir-se mais próxima ainda de si, enxergando os seus problemas de uma outra forma para tentar resolvê-los com outras ferramentas. Muitos desses problemas são internos e, ao desenvolver o nível de sensibilidade individual, também cresce as possibilidades e instrumentos para possíveis soluções desses conflitos, como ainda para outros que possam surgir futuramente.

Sobre o que as minhas meditações – regradas com músicas específicas –, fizeram comigo, posso afirmar o seguinte:

1. As crises de ansiedade passaram a acontecer cada vez mais espaçadamente, até cair a zero;


2. Os sintomas que anunciavam as crises (sim, existem “gatilhos” que, quando acionados, nos avisam que uma crise virá), ficaram cada vez mais brandos, até também caírem até zero;


3. Passei a perceber novamente a beleza das coisas bem simples, como nuvens; a cor do crepúsculo; tendo o sorriso estampado no rosto sem motivo aparente; apaixonei-me por árvores; passei a dirigir mais devagar;


4. A minha resolução de problemas ficou cada vez mais clara, menos apreensiva;


5. A disposição no dia-a-dia e durante as minhas aulas aumentou significativamente.

Dan Harris, diz em seu livro que, assim como ao longo das décadas de 1980 e 1990 ocorreu uma “febre” envolvendo a malhação – academias lotadas, na busca do corpo perfeito –, sendo muito provável que, logo em breve, ocorrerá uma nova tendência, abarcando a meditação. Oremos.

Philip K. Dick, autor de “Androides sonham com ovelhas elétricas?” (1968), que deu origem ao filme “Blade Runner” (1982), naquela época, colocou o “Vidfone” no papel. Atualmente, realizar uma videoconferência é algo bastante comum. No livro ele também escreveu sobre um tipo de “gerador de frequências”, no qual Deckard (o protagonista, que no filme foi interpretado pelo ator Harrison Ford), em um diálogo com sua esposa, sugere e faz perguntas se a mesma usou o aparelho para dormir, para efetuar tarefas e, até mesmo, para apaziguar uma discussão entre o casal. Tal aparelho ressurge no segundo episódio do filme: “Blade Runner 2049” (2017).

Voltando ao Oliver Sacks, em uma de suas narrativas das experiências envolvendo os sons e a mente humana, ele realizou muitos testes de Musicoterapia em pacientes e obteve resultados bastante significativos. Entretanto, todos os registros foram feitos com música analógica, ou seja: ou fitas-cassete, ou discos de vinil. Com a chegada da música digital, Oliver pensou: “Agora, com essa música limpinha e sem chiados é que vamos decolar com os resultados!”. Mero engano. Deu ruim. Os resultados caíram drasticamente com a Musicoterapia sendo realizada com CD’s.

Depois de um certo tempo, Oliver chegou em uma conclusão. A causa da queda foi a conversão do som analógico para códigos binários e sua taxa de bitragem, que gerava uma quantidade de informações limitadas para o formato digital, que é um padrão de aproximadamente 44 mil informações por segundo. Parece muito, não é mesmo? Uma codificação em 16 bits, tem-se 216 possibilidades de valores, ou seja, um total de 65536 valores possíveis. Nossa! Parece muito. Mas é infinitamente menor do que o valor analógico, antes de uma conversão. Com a atual tecnologia, essa conversão fica quase imperceptível para nossos ouvidos, mas não para nossas mentes. Agora, imagine o valor em MP3, que é uma compressão para o formato digital, que cai para 320kbp/s? Cerca de doze vezes menor que o formato digital sem compressão (geralmente em .WAV ou .AIFF que é o formato encontrado em CD's de áudio). Oliver, então, voltou a aplicar a Musicoterapia com instrumentos analógicos e os resultados voltaram a crescer novamente. 


Adendo: Transtorno de ansiedade é uma doença relativamente nova. O que funcionou comigo, pode não funcionar com outra pessoa. É importantíssimo um acompanhamento profissional. Sempre que puder, escute músicas ao vivo; também procure ouvir música em formato físico (em vinil, fitas K7 e CD’s também), deixando o MP3 e o pen drive para último caso. Sua mente agradecerá.


Bruno Torrez

Filho de Bamba, cresceu em pagode de mesa. Mestre em Ed. Musical, baterista, ama o Grunge e as pessoas sensíveis. Como dizia seu pai: "Que sejamos sempre nós três. Eu, você e a nossa amizade".

|@btoorrez

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