Ads Top

Toca-Fita | Musicalização: a chave para o universo?

Contemplar a música sensivelmente: o que está acontecendo? (Quadro: Leonid Afremov)


A educação musical não é considerada uma ciência, mas muito tem sido feito nesse campo específico da música. As pessoas ainda confundem bastante a educação musical como a forma de se ensinar instrumentos musicais e/ou com a leitura/escrita do pentagrama musical (partitura), mas não bem é isso. Educar musicalmente é tornar o indivíduo mais sensível à música, seja na recepção – no escutar, sentir e interpretar os sons –, como também no fazer música. Para isso, não é necessário ter instrumentos tradicionais, mas conscientizar a pessoa para o elemento básico da música: o som e suas qualidades.

Pode ficar um pouco confuso para quem não é da área, mas o processo de musicalização (é esse o nome mais utilizado), envolve as questões que são sensoriais e perceptivas sonoras, e que podem ser estimuladas em qualquer faixa etária. Obviamente que, quanto mais cedo (desde o útero – falo um pouco sobre isso no final do texto), mais benefícios para a vida do indivíduo. Porém, ainda existe muito preconceito, barreiras e políticas que impedem a população brasileira de obter uma educação musical plena e prazerosa. Raras são as escolas no Brasil que possuem espaços adequados e que contemplem de maneira efetiva tais procedimentos educacionais.

Na área acadêmica, a Educação Musical (sim, tratando-se de pesquisa, ela é escrita com letra maiúscula) tem avançado bastante nas últimas duas décadas, possuindo associações nacionais relevantes, tais como:

  • Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música (ANPPOM), que além da Educação Musical, também contempla outras sub-áreas da Música (como a Musicologia, Etnomusicologia e Performance, por exemplo);
  • Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM), voltada para esse campo específico.

Um pouco da história sobre a educação musical


A educação musical ocorreu em várias das nossas civilizações antigas. Egito, Japão e, principalmente, na Grécia, onde foi bem documentada. Naquela época bem distante, no início das nossas civilizações, a humanidade entendera o recado de que os sons eram importantes, e que eles faziam bem para a vida e para a alma. A música era tratada entre os Gregos como “formadora da ética para o cidadão”, sendo obrigatória para todas as crianças. Os filósofos Platão e Pitágoras foram muito importantes, tanto nas questões que envolvem a música e o intelecto humano, como para os cálculos matemáticos em torno dos sons.

Em Roma a educação musical evoluiu para dois lados. Por um lado, os filósofos neoplatônicos e do neopitagorismo estudavam sobre os princípios e desdobramentos numéricos abarcando os sons, e por outro lado, um certo tipo de “orquestra” começava a surgir, pois a população Greco-romana ampliava-se cada vez mais por meio dos territórios conquistados. Somava-se, então, a sua tradição musical à cultura do território invadido, aumentando também os tipos de instrumentos e características de sua música.

 Beethoven – escultura feita por Francesco Jerace (1895) exposta no Conservatório de Música de San Pietro, em Nápoles.


Na Idade Média deu ruim. Ainda ocorreram pesquisas e desenvolvimentos voltados para os cálculos matemáticos e os sons. A harmonia musical teve um longo caminho, indo desde o contraponto de Bach até o auge da forma musical no período clássico, tendo Beethoven como “chefe desse departamento”. Mas, durante todo esse período a igreja mandava e desmandava em tudo e em todos. Tivemos uma grande revolução durante o Renascimento, época na qual as artes cresceram para um plano importante para toda a humanidade.

A música popular sempre existiu, mas ocorria “por debaixo dos panos”, e cada região possuía seus instrumentos típicos, canções, melodias e temáticas características, que eram passadas de geração em geração e com poucos documentos de registro. No período Romântico, as músicas populares, com seus folclores e costumes, chegaram à música ocidental e os compositores eruditos começaram a incorporar elementos e instrumentos regionais nas suas músicas e orquestras. O Nacionalismo instalou-se e a Igreja perdia um bocado da sua força.

Mas durante toda a Idade Média a educação musical ficou de escanteio. O ensino de música era voltado para poucas pessoas, geralmente um grupo já predeterminado em cada reino, e assim ocorria na forma dita como “tradicional” de ensino/aprendizagem de instrumentos. Esse é um dos grandes motivos de, até hoje em dia, as pessoas associarem o ensino de música com o ensino instrumental.


Hoje em dia: o que está havendo?


Eu penso da seguinte forma: a música nunca foi tão compartilhada em toda a sua história. Vivemos em tempos que não se escuta mais um disco, apenas singles. Época em que os views e plays são conseguidos burlando o próprio sistema, por meio da inerente ignorância humana. Sim, existem verdadeiras “empresas” para que sua música faça sucesso no Youtube, por exemplo. Você paga e ganha views, tendo um grupo criando perfis fakes, logando e deslogando o dia inteiro para dar ao pseudo-artista contratado likes ou views. Criam também boots (robozinhos de redes sociais), para interagir e postar comentários bacanas ao contratado. Temos certos artistas que não conseguiriam nem chegar perto das estatísticas que aparecem nos seus canais. Outros perfis fakes no Spotify, com músicos que não existem, para conseguir plays em músicas que não foram eles que gravaram. O Facebook me propõe que eu pague R$3,00 para impulsionar minha página para 1500 pessoas; O Instagram recentemente expõe perfis patrocinados, de gente que eu nunca ouvi falar. É um tipo de conduta que o ser humano também não estava preparado para tal: a mentira virtual que mascara a realidade da arte. 

Acabamos, então, por consumir obras musicais das quais não fazem parte do nosso processo formativo e nem do nosso gosto. Talvez nos falte aquele princípio Grego, no qual a música seria colocada como parte estrutural da formação ética e moral do indivíduo. A música possui um tipo de magia para isso, que, segundo Pitágoras, ela, juntamente com a matemática, “possuem as chaves do segredo do universo”. Acredito também no seguinte: nós, seres humanos, mamíferos, após a fecundação do óvulo, começamos um longo processo de divisão e multiplicação celular. Muito se escuta por aí que “o 1º órgão a ser formado em um feto humano é o coração”. Mas, na realidade o 1º órgão a ficar 100% completo chama-se cóclea – que faz parte do nosso ouvido interno –, responsável pela nossa audição. Depois que ela fica prontinha, possuindo aproximadamente o tamanho de uma ervilha, ela não cresce mais. Dali, até a nossa morte, ela ficará do mesmo tamanho. Isso tudo me faz crer que somos seres feitos para escutar, cabendo à educação musical em desenvolver, sensibilizar, incentivar e ampliar os horizontes sonoros/musicais para que nossa conduta e bem-estar sigam para um caminho cada vez melhor.


Adendo: agora pare comigo e reflita: você teve um processo de musicalização durante a sua vida? Lembre-se da sua infância. Nela, você chegou a fazer (construir) músicas? Ou você somente participou “cantando junto” em alguma música que já existia? Algum professor(a) te ensinou a tocar algum instrumento na escola ou aprendes-te apenas uma ou mais músicas que já existiam antes? Musicalizar difere de “reproduzir”, entendes? É fazer e sentir música; experimentar muito; criar possibilidades; organizar e desorganizar; ter a consciência do como e o que se pode fazer com os sons; brincar e ser feliz.






Bruno Torrez

Filho de Bamba, cresceu em pagode de mesa. Mestre em Ed. Musical, baterista, ama o Grunge e as pessoas sensíveis. Como dizia seu pai: "Que sejamos sempre nós três. Eu, você e a nossa amizade".

|@btoorrez

Tecnologia do Blogger.