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Fora da Tela | Um aquário nunca é apenas um aquário


Trago em meu corpo as marcas do meu tempo
Meu desespero, a vida num momento
A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo
(Taiguara)

(Atenção: spoilers na pista!)

Primeiramente, #foratemer. Segundamente, perdão pelo trocadilho com o título do filme desta semana, Aquarius (2016), mas é que esse me remeteu várias vezes à sentença (frequente e, acabei de descobrir, falsamente) atribuída a Freud, "às vezes um charuto é apenas um charuto". A frase seria um alerta contra leituras um pouco mais… criativas sobre os objetos e nossas relações com os mesmos. Mas, independente da validade ou não das teorias psicanalíticas, um objeto, de fato, nunca é apenas um objeto.


Na época em que o filme de Kleber Mendonça Filho foi lançado, os críticos de forma geral se concentraram no antagonismo político, demasiadamente político da trama: Clara (que está para Davi) é uma jornalista e escritora aposentada que resiste bravamente contra vender seu apartamento para a construtora Bonfim (que está para Golias), a gigante do capital imobiliário que quer botar o velho edifício abaixo e construir, em seu lugar, um desses prédios de luxo não tão raros no paredão de concreto e vidro da orla recifense. Vários elementos da trama, inclusive seu verdadeiro aspecto central, foram de modo geral desdenhados – talvez por "culpa" do próprio diretor, que equalizou Clara à Dilma Rousseff, e de sua equipe, com seus protestos pelos festivais mundo afora; talvez por "culpa" dos níveis grotescos de especulação imobiliária atingidos na história recente do país e das respostas da sociedade aos mesmos, principalmente na forma de movimentos como MTST e o recifense Ocupe Estelita.

O caso é que me parece que a trama principal é apenas a fachada; a fundação do filme, de fato, é o embate dialético entre as forças da mudança e da permanência, o que denota uma profundidade não apenas ideológica, mas também filosófica. Clara é claramente (perdão) a personificação da permanência: a vida que venceu o câncer (a cicatriz da mastectomia é o foco aqui, não a doença em si); a proprietária que não quer se desfazer de seu imóvel apesar das pressões sofridas por todos os lados, vindas inclusive da própria família; a permanência das "mídias analógicas" não em detrimento, mas ao lado das "mídias digitais"; a pesquisadora guardiã da memória do canto orfeônico, projeto de educação musical de Heitor Villa-Lobos e tema da pesquisa que a levou a se afastar da família por dois anos. Clara é uma personagem radical no sentido etimológico da palavra, sua vontade está tão enraizada na terra quanto a fundação do Ed. Aquarius.

E tão radical quanto é o impulso à "destruição criativa" do capital - pragmático e extremista em sua ânsia por aprofundar a extração de mais-valia e lucros, transformando a sociedade de forma cada vez mais acelerada, independente da tua, da minha, da nossa vontade subjetiva. O exemplo mais evidente no filme é a sanha da construtora em demolir o edifício de Clara, mas há outros aspectos por trás disso. Minha geração – a geração de Ana Paula, filha de Clara, e Diego, neto do dono da construtora Bonfim – cresceu acostumada a esse ritmo lancinante de transformações, e acho que vem daí essa forma esvaziada e superficial de se relacionar com as coisas: a impermanência típica do consumismo exacerbado, o comprar pelo comprar, o “quebrou, joga fora”, o “acabou de usar, vende por um preço massa no mercadolivre”. A geração da ansiedade e do desapego, um alimentando o outro permanentemente.

Mas Clara nos provoca a considerar uma outra relação com os objetos. Tão importante quanto o edifício que dá nome ao filme é uma cômoda: para Clara, uma lembrança de tia Lúcia; para tia Lúcia, o móvel sobre o qual teve relações intensas e explícitas com seu falecido companheiro. Assim como alguns vinis: o disco de John Lennon, por exemplo, é “feito uma mensagem na garrafa”, foi adquirido em um sebo e trazia uma reportagem feita pouco antes do assassinato do cantor. Umas fotos: a da empregada Juvenita, que roubou a família e que, após o irmão de Clara chamar sua atenção para a foto, manifesta-se como um fantasma a perambular pela casa e assombrar o sono da personagem de Sonia Braga. Um carro antigo: a foto carro do irmão de Clara, o mesmo que aparece na cena da praia logo no começo do filme, a relação íntima e afetuosa da família para com o veículo. Ou seja, a questão não é o objeto em si… aliás, é o objeto em si e o que está por trás dele: o apego à memória, à conexão permanente com os afetos passados. A manutenção da própria humanidade.

Até certo ponto, os objetos emulam nosso ciclo de vida: eles nascem (são produzidos), crescem (são transformados através de seus diversos usos) e morrem (são jogados no lixo). Alguns até mesmo parecem adquirir vida própria (é o caso, creio eu, das impressoras, que sempre resolvem por livre e espontânea vontade dar pau quando sentem que são necessárias). Tal projeção é resultado, evidentemente, de nosso investimento afetivo sobre eles e...

Pausa para um breve relato pessoal: olho para os meus CDs e me lembro exatamente da ocasião em que encontrei por acaso o Tudo foi feito pelo sol, dos Mutantes, em uma loja de departamentos na tarde de um dia muito, muito, muito quente. Lembro que estava em Fortaleza, lembro com quem eu estava, lembro que foi em 2005, lembro o que estava fazendo da minha vida então. Em contrapartida, não faço a mínima ideia do que ocorria comigo e com o mundo quando baixei a discografia dos Mutantes pela primeira vez. Um mp3 (o arquivo em si, não a música) não tem cheiro, não tem textura, não funciona como âncora de memórias e afetos; ao contrário da mídia física, que é música e algo mais.

Voltando ao embate entre mudança e permanência, esse manifesta-se também na contraposição entre o sexo e a morte, presentes literalmente desde o começo do filme: no aniversário de tia Lúcia (y el sexo; desculpa, não tem nada a ver com Aquarius, mas recomendo fortemente o filme), essa olha para a cômoda e lembra-se dos dias e noites de amor com seu recém-falecido companheiro; em uma cena, Clara transa com um garoto de programa, em outra ela visita o marido morto e se depara com coveiros abrindo um túmulo e retirando um cadáver dali; de um lado, Clara flagra um momento íntimo entre seu sobrinho e a namorada, de outro eles visitam a diarista Ladjane e acompanham as homenagens a seu jovem filho, morto em um acidente de trânsito.


Finalmente, volto à trama política central para destacar que a onipotência do capital é muito bem simbolizada. Em primeiro lugar, a construtora utiliza o sexo na forma da orgia hedonista organizada por Diego no apartamento acima do de Clara – orgia que, em vez de repugná-la, a excita a ponto da personagem contratar no ato um garoto de programa. A princípio ela fica satisfeita, mas posteriormente, por conta da pressão exercida pela construtora, Clara começa a desenvolver episódios de paranoia que mesclam a insistência de Diego e o garoto de programa, e o sexo adquire conotações muito além da erótica.

Em segundo, a construtora utiliza a religião, mais um contraponto ao sexo se considerarmos que o apego ao além aponta diretamente para uma verdadeira fixação com a morte. Cabe um parênteses estendido sobre esse ponto: os devotos que ocupam o prédio são extremamente bem educados com Clara, chegando a ajudá-la a carregar o carrinho de bebê de seu neto pela escada; em outro momento, Ana Paula parece se referir a Diego quando fala que foi atendida pelo rapaz da construtora, que lhe “pareceu uma pessoa extremamente educada”. Menciono esses fatos para apontar mais uma vez, como fiz rapidamente no ensaio sobre Que horas ela volta?, para o perigo de olhar superficialmente para a questão das boas maneiras na sociedade burguesa: não raramente elas ocultam relações extremamente perversas e violentas.

Por fim, a construtora utiliza a própria natureza, visto que o plano malévolo que mencionei é infestar o prédio de cupins para corroer suas estruturas, pondo em risco a própria vida de sua única moradora.

O filme acaba com uma aparente chantagem bem sucedida de Clara contra a construtora. Se de fato o foi, podemos imaginar dois possíveis epílogos: em primeiro lugar, a empreiteira cede à chantagem e espera, de fato, o prazo dado a Diego por Clara, que diz que só sai de lá morta; Clara morre e Recife recebe mais um edifício de luxo. Em segundo, a empreiteira não cede à chantagem, forçando Clara a publicar os documentos e a história toda. Segue-se um escândalo, os responsáveis são punidos, mas... a especulação imobiliária segue seu rumo e a lacuna deixada no mercado pela falecida Bonfim logo é preenchida por outra grande empreiteira.

No fim das contas, as forças de transformação e permanência não estão acima das disputas políticas, ou seja, livres da ideologia: ambas, no filme, são partes inelimináveis do capital; elas não se cancelam, mas se completam para conservar a sociedade do jeito que está. E nós continuamos nadando feito peixes perdidos no pequeno e claustrofóbico aquário da vida burguesa.

Até o momento em que a fundação desse edifício seja simplesmente dinamitada, claro.

O gif é de Clube da Luta, mas, né, fica a dica

Yuri da Costa

Paraibano de nascença, cronópio de criação, está convencido de que a arte projeta a vida tanto quanto a vida projeta a arte, além de acreditar que, no tocante à crítica de cinema, os fins justificam os spoilers.

|@yuri_da_costa

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