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Na Lupa | A série Fargo e sua curiosa cadeia de eventos


Sempre curti muito o filme Fargo, lançado em 1996, sobre um vendedor de carros endividado que contrata dois bandidos para sequestrarem sua esposa, esperando que o sogro pagasse o resgate. Obviamente tudo sai dos eixos e o resultado é uma curiosa comédia de erros com um final inesperado. Quando foi anunciado que seria lançada uma série baseada nessa película, tive as minhas ressalvas porque achava a projeção amarrada demais para gerar algum tipo de spin off. Mesmo assim resolvi conferir e o resultado é uma grata surpresa.

Seguindo o formato de American Horror Story e True Detective, trata-se uma série antológica, onde cada temporada é concebida como uma história independente, seguindo um conjunto de personagens, ambientações distintas e um enredo com o seu próprio "começo, meio e fim." A cidade que dá nome ao título aparece em certo momento da narrativa, mas a ação é concentrada em outras cidades igualmente pequenas e isoladas no meio da neve intensa.


A primeira história é focada em Lester Nygaard, um pacato vendedor de seguros que sempre foi intimidado por todos, inclusive a própria esposa. Após reencontrar alguém que o infernizava na escola e sofrer um acidente, ele acaba conhecendo um estranho com um senso de justiça bastante peculiar. A partir daí tem início uma série de acontecimentos imprevisíveis que irão alterar de forma drástica a vida de todos os envolvidos nesse emaranhado de histórias interligadas.

A direção caprichada traz várias cenas memoráveis, como um tiroteio em meio a uma neblina bastante densa e um genocídio acompanhado pelo lado de fora de um prédio com paredes espelhadas. A câmera segue o assassino e sobe os andares junto com ele, mas só nos é permitido ouvir os tiros de metralhadora e os gritos das vítimas. Cada diálogo é cuidadosamente encaixado para dar tensão e fluidez ao roteiro.

Vale comentar ainda o arco do protagonista, interpretado pelo genial Martin Freeman, uma pessoa digna de pena que vai gradativamente se tornando mesquinho e deplorável, abusando de sua imagem indefesa e seguindo um instinto deturpado de autopreservação que o transformará para sempre.

Outro personagem genial que merece ser mencionado é o psicótico Lorne Malvo, alguém que se enxerga como um predador que estuda o seu ambiente e joga com ele. Sabe ser dissimulado quando necessário e age com uma precisão cirúrgica, o que o torna extremamente assustador. Seus estranhos discursos sobre como a vista humana é a única que consegue diferenciar mais tonalidades de verde e suas ameaças indiretas o tornam sombrio e enigmático. Billy Bob Thornton está fantástico nesse papel.


Assim como o filme, a série também afirma ser baseada em fatos reais, mas esse artifício é usado somente para nos aproximar do universo apresentado, a fim de que possamos nos relacionar com as escolhas dos atores nesse imenso teatro humano que chamamos de vida. Uma série que apresenta controversas colchas de retalhos ilustrando nossas inconstâncias e paradoxos, trazendo à tona nossas potencialidades, sejam elas boas ou ruins.

As três primeiras temporadas estão disponíveis na Netflix.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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