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Toca-Fita | O áudio binaural de Justin Timberlake, o príncipe das madeiras



Considerado como um dos ícones do Pop, Justin Timberlake lançou recentemente o álbum “Man of the Woods” (2018). Um disco bacana, dançante, sexy, melódico, com ótimos timbres e (o que me chamou mais a minha atenção) tendo uma lindíssima forma de mixagem. Nos autofalantes soa muito bem, só que nos fones de ouvido o disco vira um “rachador de cérebro em dois”. Ele foi mixado tendo uma grande distribuição dos instrumentos no campo estéreo, mas principalmente com a utilização do campo binaural (volto a tratar disso mais adiante), que faz o ouvinte ter a recepção dos sons em posicionamentos distintos, causando uma sensação de extrema complexidade e riqueza. Acredito que os engenheiros de som do disco focaram-se em como os jovens consumem música na atualidade: fones. 

Sobre a produção, alguns dos timbres e arranjos utilizados foram bem característicos de Timbaland, que também produziu o álbum póstumo de Michael Jackson, “Xscape” (2014) e o extremamente criticado álbum “Scream” (2009), de Chris Cornell. Juntamente com Timbaland, Pharrell Williams, Danja, The Neptunes e Rob Knox também colocaram suas mãos mágicas na produção, além do próprio Justin.

Justin optou pela estratégia de lançar um clipe por semana, antes de lançar o disco. O primeiro single, “Filthy”, foi lançado em 4 de Janeiro com um clipe que deixaria Michael Jackson orgulhoso. Trata-se de um humanoide dançarino que faz praticamente todos os movimentos clássicos do Rei do Pop. Passando-se na Malásia, no ano de 2028, o robô é apresentado por Justin, roubando a cena da plateia.


No dia 18 de Janeiro foi liberado o clipe de “Supplies” que é de cair o queixo. Com um visual belíssimo, trata-se de uma crítica sobre a sociedade atual. Entretanto, as letras – tanto desse segundo single, como a do primeiro – poderiam ter um teor mais profundo. Eu compreendo que o Pop contém muitas repetições entre versos e refrão, mas acredito que no conteúdo poderiam ser um pouco menos superficiais. Letras à parte, encante-se com o visual e edição, abaixo:
 

O álbum contém duas músicas com parcerias. Alicia Keys na faixa “Morning Light” (um tipo de Reggae Soul), e a outra com Chris Stapleton, em “Say Something”. Essa última sendo o terceiro single, foi lançada no dia 25 de Janeiro. Um clipe bem mais simples, daqueles realizados em uma única tomada e sem cortes. Em um ambiente com pouca luz – aparentando ser uma biblioteca antiga, com vários andares – a dupla caminha calmamente pelo ambiente e entre os andares, tocando violões e tendo um ponto com a faixa tocando em playback em seus ouvidos para guia-los. É um tipo de clipe trabalhoso, mas também prazeroso em realizá-lo. Um forte coral presente nas escadarias canta juntamente com Justin e Chris.


“Man of the Woods” é um disco que atira para tudo que é lado, mas Justin sabe onde está pisando em cada local de cada faixa. Pra discoteca? Tem um monte. Pra filme? Tem. Pra rádio? (sim, elas existem) Tem. Pra uma noite a dois? Tem. Pra internet? Ele já começou com três bombas mesmo antes de lançar o disco. Apesar de conter uma capa simplista, consigo ver um antigo conceito de prateleira: com as bordas laranjas, fica fácil reconhecer e apontar: “aquele ali é o novo disco do Justin”.

Como prometi, voltando ao assunto do binaural, precisamos compreender algo importante antes, que foi a chegada do som estéreo:

O long play – LP surgiu em 1948. No LP houve a diminuição do tamanho dos sulcos, permitindo que esses discos funcionassem em 33 RPM e, consequentemente, suas gravações comportavam mais músicas (de 20 a 24 minutos de gravação) em cada lado do disco. Nesse período, as gravações ainda eram realizadas em apenas um canal (mono), e somente em 1958 passaram a ter dois canais, em um processo nomeado como “estereofonia bi-canal”, o vulgo: “estéreo”. Assim, surgiram os canais “direito” e “esquerdo”. Na mixagem, podemos posicionar os instrumentos entre esses canais (centro), ou direcionar para alguns dos lados.

Esse processo é chamado comumente de panorização ou, simplesmente, “pan”.   Segue uma figura de uma mixagem simples, demonstrando onde podemos posicionar alguns instrumentos dentro de um campo estéreo:



Na maioria das vezes, os instrumentos graves (baixo e bumbo), voz principal e caixa estarão ao centro (12h). Mas não é o que acontece na música “Filthy”. O baixo, nessa faixa, está próximo de 11:30; já a voz principal de Justin, aparece em 1h.

Quando utilizamos o pan, estamos trabalhando em uma escala de duas dimensões. Por sua vez, o binaural trata-se de uma escala em três dimensões, na qual podemos posicionar um som acima do ouvinte, atrás, mais próximo ou mais distante. Quando estamos no cinema isso fica claro: o som daquele helicóptero realmente parece que “passou” por nós, correto? Pink Floyd gravou “The Final Cut” (1983) com essa técnica, ainda de forma analógica e com muito mais trabalho do que o Pearl Jam, com o álbum homônimo à técnica “Binaural” (2000), que utilizou de recursos digitais para o feito.


O efeito binaural possui resultados interessantes no nosso cérebro e sistema nervoso. Ele é capaz de liberar a nossa endorfina em certas ocasiões, sendo também utilizado em alguns tipos de terapia. Esses áudios estimulam nossa percepção com o uso de certas frequências em localizações distintas que são capazes de nos colocar em um certo tipo de “contato” com o nosso subconsciente.


Adendo: Justin, juntamente com seus produtores, fizeram um trabalho de primazia sonora com “Man of the Woods”. Se você tiver um bom par de fones, recomendo fechar os olhos e escutar o disco com eles. É de rachar a cuca.




Bruno Torrez

Filho de Bamba, cresceu em pagode de mesa. Mestre em Ed. Musical, baterista, ama o Grunge e as pessoas sensíveis. Como dizia seu pai: "Que sejamos sempre nós três. Eu, você e a nossa amizade".

|@btoorrez

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