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Na Lupa | Os heróis demasiadamente humanos de Watchmen


Watchmen é uma série em quadrinhos escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons, dividida em doze volumes. Considerada um divisor de águas no gênero por tratar de temas mais maduros e complexos, seu sucesso de crítica contribuiu para popularizar o formato conhecido como graphic novel (romance visual).

O acabamento artístico é impecável e o carinho no detalhamento das sequências denota o refinamento e o cuidado na criação deste clássico que revolucionou o seu estilo.

A trama acontece em um contexto alternativo, onde criminosos e defensores da lei resolveram se enfrentar fantasiados, tendo as histórias de gibis do gênero como fonte de inspiração para tal. Surge assim no começo dos anos 60 a primeira liga de vigilantes chamada Minutemen, em homenagem aos bravos cavaleiros que lutaram na guerra da independência americana. Com o tempo, os vilões trocaram os trajes e pseudônimos pelos ternos corporativos, embora continuassem com seus atos ilícitos.


A misteriosa chegada do Dr. Manhattan, um hominídeo dotado de poderes sobrenaturais, foi o evento que marcou o início do fim da primeira equipe e o nascimento da segunda_ os Watchmen.Da formação antiga, somente o comediante permaneceu ativo.Alguns aposentaram, um foi internado no hospício e outro desapareceu.

O segundo grupo de heróis alcançou um elevado nível de eficiência, causando um descontentamento na polícia que terminou entrando em greve e deixando os cidadãos com uma sensação de insegurança e medo, pois não havia quem regulasse qualquer abuso de poder dos vigilantes disfarçados.

Essa situação instável levou à promulgação da Lei Keene em 1977 que exigiu o registro dos "aventureiros fantasiados" no governo, pondo fim ao segundo grupo.

Todos esses eventos são narrados em flashbacks, já que a história tem início com o misterioso assassinato do único herói que pertenceu às duas formações, tendo adotado este apelido como uma resposta irônica à defesa hipócrita e cínica da moral americana.Optou por transformar-se em ícone da grande piada do governo americano ao usar de violência extrema dentro e fora do país para preservar sua democracia, mas seu humor era sutil demais e poucos compreenderam.


O crime é investigado pelo enigmático e violento ex-parceiro Rorschach que acredita na existência de uma conspiração para eliminar seus antigos companheiros.

O painel geopolítico da Guerra Fria, onde os fatos ocorrem, proporciona uma interessante leitura da hegemonia americana, representada pelo onipotente Dr.Manhattan que atuou como fator decisivo para a vitória do conflito armado no Vietnã,possibilitando a permanência do corrupto presidente Richard Nixon na presidência do país.

O autor faz um julgamento crítico do caráter social ao retratá-lo como narcisista, individualista e mesquinho, imerso em sua depravação e cobiça. Um interessante debate sobre o valor do sacrifício de inocentes em prol de um bem maior.

Outro imenso diferencial foi a apresentação de heróis em constante conflito emocional, incertos de seu papel nesta conjuntura. Um deles inclusive chega a usar sua própria imagem para ganhar dinheiro com publicidade.

É imperativo mencionar a história paralela que é inserida em doses homeopáticas ao longo da narrativa principal. Conta a história de um capitão que teve sua tripulação morta e a caravela destroçada por um sombrio cargueiro negro. Desesperado, o náufrago improvisa uma balsa com os cadáveres de seus ex-marinheiros para tentar chegar em sua cidade antes que essa ameaça marítima o faça.

A adaptação para os cinemas dirigida por Zack Snyder foi bastante fiel, apesar de uma alteração no final que só a tornou mais verossímil e não comprometeu a sua integridade.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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