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Na Lupa I A força do mito em El Cid

O poder do mito move civilizações, pois dialoga com nossos desejos mais viscerais. Impulsiona os corações a agirem seguindo ideais nobres, servindo como modelos de comportamento. Seus ideais moldam o caráter de uma nação, contribuindo para sua evolução moral e cívica.

Um ícone projeta as esperanças de um povo, confirmando uma ansiedade compartilhada pelos vários cidadãos de um país. Suas ações espelham o caminho para a unidade política e ideológica do território.

Ambientada na Espanha em 1080, a narrativa acompanha a história do ilustre Rodrigo Díaz de Vivar, chamado de El Cid (do mourisco sidi, "senhor") por sua “visão para ser justo e coragem para ser misericordioso”.


Seu respeito aos adversários islâmicos lhe rendeu uma acusação de traição, onde terminou forçado a lutar até a morte com seu sogro para defender a honra de seu pai. Tal evento acabou por transformar o amor incondicional de sua amada Jimena em ódio.

Ele reconquista a simpatia do Rei Fernando quando vence a disputa com o reino de Aragão pela cidade de Calahorra. A partir deste momento recebe o título de 1º cavaleiro, acumulando vitórias enquanto comanda o exército real.

Após a morte do patriarca e consequente divisão do território entre seus três filhos, Rodrigo precisa reavaliar sua posição dentro deste novo contexto, já que o mais velho deles pretende englobar todas as terras. Enquanto isso os mouros do norte da África liderados por Bem Yussuf planejam se aproveitar dessa instabilidade fraternal.

A montagem do cineasta Anthony Mann constrói com carinho o perfil do protagonista, um cavaleiro extremamente dedicado à sua pátria e seus governantes, fiel à mulher que ama e respeitoso com seus inimigos.


Tal tratamento justo com os islâmicos era fundamentado na lógica de que o tratamento violento inevitavelmente implicaria em represálias. Essa atitude diferenciada teve como consequência uma poderosa aliança com soldados mais tarde o ajudaram a expulsar os invasores da Espanha. Interessante comentar a complexidade dos personagens retratados, inclusive o protagonista, evitando assim o maniqueismo e permitindo uma visão tridimensional da conjuntura apresentada.

Um filme sobre um guerreiro que conseguiu transcender sua imagem, tornando-se o símbolo de um estado nacional em processo de unificação, definindo sua identidade sem ignorar a valiosa contribuição mourisca para definir a essência de seu povo.

O elenco traz as excelentes performances de Charlton Heston e Sophia Loren, dentre vários outros nesse belíssimo épico. Um herói que mobiliou massas num período em que a Espanha estava encontrando sua identidade.


El Cid transformou-se em mito e desta forma foi eternizado. Sua imagem condensou todos os ideais que buscava, traduzindo a conquista da terra espanhola e a afirmação de sua nacionalidade.

Um clássico do cinema sobre um líder que inspirou gerações de cavaleiros com seu imaculado código de justiça e um genuíno amor a tudo que ilustra o caráter de seu país.


Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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